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Campanha da Fraternidade 2008
O DOM e a MISSÃO da VIDA – CF 2008

O DOM e a MISSÃO da VIDA – CF 2008

Campanha da Fraternidade, consagrada bandeira pela vida

A Campanha da Fraternidade foi iniciada em 1963, em nível regional, em Natal, RN, e a partir de 1964, em nível nacional. Iniciativa da Igreja Católica, com duas edições ecumênicas, por seus objetivos permanentes e pelos temas abordados, tornou-se patrimônio do povo brasileiro. Sempre foi um clamor profético denunciando situações mais ameaçadoras à vida do ser humano e à de todos os seres vivos, com propostas para preservar e promover o dom divino fundamental, a vida, tornando-a doação generosa ao Criador e aos irmãos e irmãs.

Seus objetivos permanentes são: despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo, em particular, os cristãos na busca do bem comum; educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor, exigência central do Evangelho; renovar a consciência da responsabilidade de todos pela ação da Igreja na Evangelização, da qual a promoção humana é parte integrante, em vista de uma sociedade justa e solidária (daí a razão e o destino da coleta final: realização de projetos de caridade libertadora).

Abordando temas diversos, ora mais da vida interna da Igreja, ora mais de presença transformadora dos fiéis cristãos católicos na sociedade, a CF ajuda a educar para a participação na comunidade eclesial e para o exercício da cidadania. Mesmo quando propôs assuntos mais de Igreja, tinha em vista a vida. tratou de: Igreja em renovação, reconciliação, serviço e vocação, mundo do trabalho, ecologia, violência, fome, terra, ecologia, saúde, migrações, menor, negro, comunicação, mulher, família, juventude, moradia, excluídos, política, encarcerados, desempregados, educação, drogas, povos indígenas, idosos, água, solidariedade e paz, pessoas com deficiência, Amazônia. Duas Campanhas foram especificamente sobre a vida: a de 1974 - Reconstruir a vida e a de 1984 - Fraternidade e vida. Alguns lemas incluíram a vida em sua formulação: Para que todos tenham vida (1984); A serviço da vida e da esperança (1998 - educação); Vida sim, drogas não (2001 - drogas); Vida, dignidade e esperança (2003 - idosos); Água, fonte de vida (2004); Vida e missão neste chão (2007 - Amazônia). Agora, trata novamente da vidaFraternidade e defesa da vida, com o lema Escolhe, pois, a vida.

Razões e abrangência desta Campanha sobre a vida

É necessário desenvolver uma Campanha sobre a vida porque estamos longe do ideal de vida presente no projeto divino da criação. A vida não é considerada o valor absoluto, sendo condicionada pelo valor econômico, que a explora em função do lucro. A injustiça social, fruto do egoísmo humano, com todas as suas maléficas conseqüênciasfome, violência, criminalidade, exclusão social, inviabiliza a vida no Planeta.

Na visão cristã, a compreensão da vida, sua defesa e promoção devem ser feitos a partir de Jesus Cristo e dos princípios do ensinamento da Igreja.

A reflexão deve contemplar a vida concebida, gestada, dada à luz e no percurso das diversas fases de seu desenvolvimento, bem como a vida de todos os seres da natureza. Sem vida no meio ambiente, é impossível a vida humana.

Objetivos da CF 2008

Geral: levar a Igreja e a sociedade a defender e a promover a vida humana, desde a sua concepção até a sua morte natural, compreendida como dom de Deus e co-responsabilidade de todos na busca de sua plenificação, a partir da beleza e do sentido da vida em todas as circunstâncias e do compromisso ético do amor fraterno.

Específicos: - desenvolver uma maneira correta de entender a pessoa para fundamentar a defesa e promoção da vida humana;

- fortalecer a família como espaço primeiro da vida que acolhe quem vai nascer e cuida dos idosos, doentes e sofredores;

- fomentar a cultura da vida, a partir da educação, para se ter uma compreensão e atitude incondicionalmente favoráveis à vida, que levem a rejeitar tudo o que provoca a morte e promove a manipulação e a comercialização do ser humano, imagem e semelhança de Deus.

O lema da CF 2008

Em qualquer momento da vida, precisamos fazer a escolha que Deus nos propõem em Dt 30,15-20: o caminho que conduz à vida ou o caminho que conduz à morte. Caminho de vida verdadeira e plena para todos, de vida eterna, é aquele aberto pela e de obediência aos mandamentos de Deus. Caminho de morte é aquele que leva a depredar os bens de Deus, que estabelece um jeito de viver sem Deus e seus mandamentos e até contra Deus. É claro que nos resta escolher a vida.

O cartaz da CF 2008

Idoso sorrindo com criança no colo dormindo tranqüilamente. O idoso reflete o compromisso de proteger o semelhante. O bebê cuidado indica a confiança que precisamos garantir aos outros. As pontas da vida se complementam. Em qualquer estágio, a pessoa é portadora de dignidade intrínseca. “Crianças e anciãos constroem o futuro dos povos. As crianças porque levarão adiante a história, os anciãos porque transmitem a experiência e a sabedoria de suas vidas” (DA 447).

A situação da vida – continuamente ameaçada

Mesmo sem a explícita, toda pessoa humana pode chegar ao reconhecimento de Deus e ao discernimento do que é bom e do que não é. São Paulo, na Carta aos Romanos (1,18-23), assegura que Deus colocou no íntimo do ser humano, em sua consciência, a capacidade de reconhecê-lo e viver segundo Ele. Assim, seguindo honestamente a própria consciência, pode perceber a sacralidade da vida e a dignidade de toda pessoa humana, discernindo o que favorece sua vida e a dos outros e aquilo que a prejudica e destrói.

No projeto divino da criação e da história, o ser humano existe para ser feliz, conduzindo com liberdade responsável a sua própria vida e sendo o “jardineiro” da terra. Feito para conviver com o Criador e com os semelhantes, encontra no outro sua complementação. Mas o pecado introduziu o vírus do egoísmo que o leva à busca da autonomia e do êxito individualistas. Com isto, perde sua capacidade de doação, de afeto sincero e de solidariedade. Joga-se no consumismo desenfreado, que frustra e esvazia seu coração. Passa a pensar apenas no que o satisfaz de modo imediato, perdendo o horizonte maior de sua existência.

Fora deste projeto, as relações entre as pessoas e com o meio ambiente se tornam agressivas e a vida não é vista como dom sagrado e inviolável em qualquer um de seus estágios. Passa a estabelecer-se aquilo que se convencionou chamar, especialmente a partir de João Paulo II, a cultura de morte. Ela se manifesta na depredação da natureza, no aquecimento global, na poluição do meio ambiente, na miséria que ultraja a dignidade humana, na fome que mata milhões, no aborto que impede a vida de quem foi concebido, na falta de condições para a saúde e a vida saudável, no abandono dos idosos e doentes...

No seu olhar para a realidade, o texto base da CF apresenta considerações sobre aspectos desafiadores que ameaçam a vida: a utilização dos avanços da ciência e das novas tecnologias sem princípios éticos e valores morais, conforme os interesses de quem financia as pesquisas e de quem delas se apropria; a sexualidade fora do contexto do amor verdadeiro; as campanhas sistemáticas pela liberação total do aborto; as pesquisas com células-tronco embrionárias, sacrificando embriões que são seres humanos constituídos; a reprodução assistida (bebês de proveta), com embriõesexcedentes”, verdadeiros “filhos congelados”; a perda de sentido do sofrimento e da morte, levando muitas pessoas ao suicídio ou à eutanásia; a pobreza e a exclusão social, com três fenômenos principais: falta de recursos básicos para uma vida digna e até para a sobrevivência física das pessoas; precariedade do sistema público de saúde e seguridade social; falta de instrução, dificultando o acesso e a livre opção por comportamentos e/ou tratamentos que defendam a vida e mantenham sua qualidade, dos quais resulta o crescimento galopante da espiral da violência e da criminalidade no meio rural e urbano.

            Em favor do aborto, da eutanásia, do controle populacional, das pesquisas e da utilização de células-tronco embrionárias para fins terapêuticos, são utilizados muitos argumentos emocionais, parciais e enganosos. O fim não pode justificar os meios. Não se pode negar que a vida humana começa no momento da fecundação, que a gravidez interrompida de forma não natural não é atentado a uma vida, que a compaixão para abreviar os sofrimentos de quem está em estado terminal não é provocar a morte. Nada pode justificar qualquer ação contra a vida. Sem o devido discernimento, que se alcança à luz da Palavra de Deus, corre-se o risco de eliminar seres humanos antes de nascer (por serem considerados “indesejáveis”) ou que estão em situação de risco ou terminal, por não serem considerados “úteis”, produtivos.

Estes e outros aspectos agravam aquilo que o Concílio Vaticano II, concluído há mais de 40 anos, condenava como infame: “tudo quanto se opõe à vida, como seja toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio voluntário; tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as tentativas para violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e jovens; e também as condições degradantes de trabalho, em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis. Todas estas coisas e outras semelhantes, ao mesmo tempo em que corrompem a civilização humana, desonram mais aqueles que assim procedem, do que os que padecem injustamente; e ofendem gravemente a honra devida ao Criador” (Gaudium et Spes, 27).

A permanente escolha em favor da vida, dom sagrado e inviolável

Por sua capacidade de reflexão e de interiorização, a pessoa humana tem condições de se reconhecer criatura no meio de inumeráveis outros seres do universo. Por esta capacidade, deve chegar ao Criador, reconhecendo a vida como dom divino.

Com a ajuda da revelação divina, condensada na Sagrada Escritura, o ser humano vai penetrando no mistério de Deus e descobre que Ele é amor. Descobre ser sua obra prima, centro da criação, incumbido da missão de cuidar dela. Por esta razão, lhe resta reconhecer que em Deus encontra o caminho da vida e da felicidade.

A revelação desta verdade se completa em Cristo, o Filho Unigênito do Pai, o Bom Pastor, enviado por Ele ao mundo para que todos tenham vida e a tenham em abundância (Jo 10,10). Com a vida e a palavra, anunciou a todos que Deus é Pai e cuida de todos como filhos e filhas. Fez de sua vida uma doação total ao Pai e aos irmãos, indicando o caminho da realização plena da vida humana. “A vida se acrescenta dando-a, e se enfraquece no isolamento e na comodidade” (DA 360). Garantiu a presença do Espírito na comunidade dos seus seguidores, para que possam recordar e viver tudo o que Ele mesmo ensinou.

A partir de Cristo, reconhecemos plenamente a sacralidade da vida e a dignidade da pessoa humana. À luz dele e com sua força, faremos sempre mais lucidamente a escolha em favor da vida, como exorta o lema da CF. Evitaremos os males contra a vida, sem excluir ninguém e sem o fechamento no subjetivismo hedonista de gozar a vida egoisticamente, buscando o que pode dar-nos prazer e satisfação. Saberemos doar a vida como Ele, colocando-nos a serviço da vida dos outros, superando o individualismo.

Dóceis ao Espírito Santo, saberemos fazer o devido discernimento diante de aspectos fundamentais da vida, conforme o texto base da CF.

- sobre a pessoa humana: Unidade indivisível, totalidade corporal, psíquica e espiritual; dotada de liberdade, com faculdade de escolher, com responsabilidade, seu caminho de vida.

- diante dos avanços das ciências: não separar descobertas científicas dos valores filosóficos e teológicos. Nem tudo o que é possível é bom. A ciência deve submeter-se ao critério da ética. A bioética, ramo da ética, não pode julgar-se neutra. Inspirada na visão integral da pessoa humana, deve evitar o subjetivismo e o relativismo ético.

- diante da esterilidade conjugal: Aumentam os recursos para ajudar a casais impossibilitados de   gerar filhos poderem tê-los. Mas é sempre necessário ter presente que o filho deve ser acolhido como um dom resultante da doação recíproca dos pais, sem separar a procriação do contexto integralmente humano do ato conjugal. As técnicas de reprodução artificial podem abrir a porta a novos atentados contra a vida. E os embriões chamados excedentes?

- diante da gestação indesejada: O aborto clandestino é triste realidade. Mas assim como qualquer outro ilícito não deixará de ser mal se for, como se pretende, liberado ou discriminalizado ou oficializado. Não se pode eliminar uma pessoa seja qual for a razão alegada. Profissionais de saúde devem valer-se do recurso ao direito de objeção de consciência ou de recusa de obediência quando confrontados com práticas abortivas.

- diante da manipulação do embrião: A fecundação, seja qual for o procedimento que a desencadeou, é o início bem determinado da vida. Todo embrião não é somente uma vida humana potencialmente pessoa, mas é uma pessoa atual em seu ser, no sentido essencial e substancial do termo pessoa.

- diante da vida afetivo-sexual: O ser humano, homem e mulher, é uma totalidade de corpo, mente, coração, espírito, afetos, sentimentos, sexualidade. A diferença masculina e feminina é para a mútua complementação no amor-doação. Não pode ficar apenas no amor-atração erótica. A sexualidade deve ser vivida no encontro interpessoal, tendo em vista unicamente o bem do outro, com a disposição sincera para o compromisso permanente e a fidelidade.

- diante da pobreza: A opção de alguém para não ter um filho por causa da pobreza ou a proposta para a contracepção e o aborto por causa dela é impor mais um sofrimento a quem pena pela exclusão. É urgente eliminar tudo o que gera exclusão social, para que os casais possam, na paternidade e maternidade responsáveis, direcionar livremente sua família.

- diante da violência: Uma das causas da espiral da violência social é a falta de acolhida da pessoa, quer do ponto de vista material e econômico, quer do ponto de vista afetivo e psicológico. Um contexto familiar e social harmônico, digno, sadio é o melhor caminho para a superação da violência, não a força, embora ela possa ser necessária em situações extremas.

- diante do sofrimento: A vida assumida a partir de Cristo, na doação do amor, tem sempre mais sentido e realização, mesmo na dura experiência da dor. Viver por algo ou por alguém – o outro e o totalmente outro que é Deus, pode não oferecer explicações convincentes ao sofrimento, mas ajuda a vivê-lo, dando-lhe a dimensão da redenção. Em Cristo, o “bom samaritano”, descobre-se o próximo nos caminhos dolorosos da história humana e faz aproximar-se dele para oferecer-lhe o bálsamo do amor, que revigora suas forças e lhe dá o alívio indispensável da ternura fraterna. O sofrimento, à luz da paixão de Cristo, anuncia a participação na glória de sua ressurreição.

- diante da morte: A morte é inevitável e estabelece o fim da vida terrestre. Jesus, o Filho de Deus, também passou por ela. Mas, por sua ressurreição, a venceu e dá a todos os que nEle crêem a certeza de que “a vida não é tirada, mas transformada”, como se proclama na liturgia de exéquias. Para quem sente chegada a sua hora de morrer e para quem está com ele, a morte se torna o grande momento da vida, o de passar deste mundo para a eternidade. Cada pessoa deve preparar-se e ter assegurado o direito de viver a própria morte. A quem está em situação terminal, deve-se garantir todos os recursos e cuidados ordinários. Por um lado, como ensina o Catecismo da Igreja Católica (2278), não se deve recorrer a procedimentos médicos onerosos, perigosos, extraordinários ou desproporcionais aos resultados esperados. Não se estaria provocando a morte, mas reconhecendo a impossibilidade de impedi-la. Por outro lado, nada justifica a eutanásia explícita ou disfarçada.

A defesa da vida

O dom sagrado e inviolável da vida, no contexto das ameaças de que é alvo, exige ações decididas, incondicionais e intransferíveis de todos para sua preservação, defesa e promoção.

A primeira atitude é a opção em favor da vida, com a promoção da cultura da vida, da espiritualidade da vida e da consciência do valor sagrado da vida.

Outras frentes de ação:

- a educação afetivo-sexual: ela não pode reduzir-se a desenvolver práticas de “sexo seguro”, para evitar doenças ou gravidez. Deve destacar as seguintes dimensões: a) promoção do exercício livre e responsável da sexualidade visando ao amadurecimento da pessoa; b) descoberta gradativa e consciente da própria sexualidade, como riqueza a ser explorada no processo do conhecimento de si e do outro; c) compreensão da sexualidade como sinal da capacidade de comunicação e comunhão entre as pessoas.

- valorização da família: É ela que possibilita as melhores experiências para a descoberta do sentido da vida, dos valores autênticos, da superação do sofrimento, da valorização e acolhimento dos idosos.

- criação de espaços de debate e diálogo: fóruns, seminários, congressos, comissões de ética médica e de enfermagem, incentivo à elaboração de teses e monografias voltadas para a bioética.

- atuação junto aos meios de comunicação: educar para o espírito crítico perante os noticiários e programas de entretenimento e educação; oferecer subsídios aos comunicadores...

- Acolhida a pessoas em situação de risco: mobilização da comunidade para acolher a gestante em dificuldade e seu filho, apoiar menores em situação de risco, trabalhar junto às pastorais desenvolvendo a ação em defesa da vida.

- ação de transformação das estruturas em vista de vida digna para todos: apoiar, renovar e criar novas instituições católicas de saúde, educação, assistência à infância e aos idosos; atuar na formulação de políticas públicas, urgindo cumprimento de dispositivos constitucionais e legais de defesa da vida.

- a promoção de uma cultura de paz: desenvolver uma espiritualidade da não violência, iniciativas de perdão e reconciliação.

- coleta da solidariedade: gesto concreto de fraternidade: dia 16 de março de 2008, domingo de Ramos. Os recursos da coleta são destinados a projetos de promoção humana.

 

Erexim, 07 de dezembro de 2007, dia de Santo Ambrósio.

 

Pe. Antonio Valentini Netopároco da Catedral São José.

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