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Campanha da Fraternidade 2009
A paz é fruto da justiça

A paz é fruto da justiça

 

1. A paz é um grande bem, um dom inestimável, sem preço, que nos vem de Deus e é conquista humana. Assim como a felicidade, é aspiração, desejo de todos. Na cultura e na religião hebraicas (do povo de Jesus), desejar a paz a alguém é desejar o que há de melhor da vida: que esteja com saúde, com o necessário para viver – casa, terra, alimento, vestuário, de bem com a vida, com os outros e com Deus, cultive a fé, não esmoreça na esperança. A este conjunto de dons e de bens, aquela cultura chama de Shalom, palavra dificilmente traduzida para outro idioma. Utilizada na saudação, esta palavra expressava ao mesmo tempo bênção e esperança, vida feliz, abundante. Significava prosperidade, que não deve ser confundida com a da pregação de certas correntes pentecostais de hoje. Utilizada pelos mensageiros de Deus, assegurava que Deus conferia uma especial graça aos seus destinatários. O shalom expressava e revela ainda hoje boas relações entre as pessoas, famílias e povos.

2. Todos desejam a paz, mas o que entendem por ela e o que fazem para desfrutá-la? Quando alguém diz: me deixem em paz, o que significa? – sossego, isolamento. É atitude egoísta. Não se vive a paz desligados de tudo e de todos. Quem pensa assim entende a paz como o sossego de cemitério...

Quando alguém diz: lá em casa é um inferno, sabemos bem o que quer dizer. Naquele lar não há harmonia, entendimento. Logo, não há paz.

A paz, então, que vem de Deus, depende da nossa harmonia interior, do bom entendimento com todos e da amizade com Deus.

Ela começa dentro da gente.

A propósito, há a estorieta oriental da senhora que estava numa feira muito movimentada. Olhava firme para o chão como a procurar algo. Uma e outra pessoa, ao passar lhe perguntavam: “o que perdeu, senhora?” E ela respondia: “uma agulha.” Não deram nenhuma importância. Mas para a quinta ou sexta pessoa, ela respondeu que era uma agulha de ouro. Aí todos os que estavam próximos se interessaram em ajudá-la a encontrá-la. Alguns queriam detalhes: “onde mesmo a senhora a perdeu?” E ela mansamente respondeu: “em casa.” E aí a indignação de todos que lhe retrucaram: “e vem procurar aqui?” E então, com toda convicção, ela completou: “Pois é, assim como vocês procuram fora de vocês a felicidade que tanto desejam....”

3. A paz é fruto da justiça. Da justiça divina, não da justiça humana, que confunde o justo com o legal. A maioria das leis humanas carrega a deturpação dos interesses de quem as fez. Se duas pessoas, uma com faculdade e outra analfabeta ou até com segundo grau, cometem juntas um crime, assaltam uma pessoa, matam-na e roubam seus bens, sendo presas, uma vai para cela especial, com diversas mordomias, e a outra, para as celas normalmente em condições desumanas. Algo semelhante se dá em relação à propriedade. É justo que todos possam ter os recursos mínimos para uma vida digna. A Igreja sempre defendeu a propriedade privada, mas não absoluta. Sobre ela pesa uma hipoteca social, disse o Papa João Paulo II, isto é, acima dela estão os interesses sociais. Pela lei, quem paga é dono. Quem tem muito dinheiro vai comprando tudo o que o pode. Legalmente, é dono, mas não é justo que alguém acumule tanto e deixe tantos sem nada.

A paz é fruto da justiça, mas não da justiça dos doutores da lei e dos fariseus, que Jesus condenou (Mt 5,20). A justiça dos seus seguidores, dos construtores de seu Reino deve ir muito além da deles.

A paz é fruto da justiça, diz o profeta Isaías (32,17). É desta afirmação do profeta que vem o lema da Campanha da Fraternidade deste ano, sobre segurança pública. A Campanha convoca, justamente, a todos ao empenho efetivo na construção da justiça social que seja garantia de segurança para todos.

Para João Paulo II, na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1998, a paz  para todos nasce da justiça de cada um. Segundo ele, as duas mantem uma vinculação inseparável. “Quando uma é ameaçada, vacilam as duas; quando se ofende a justiça, põe-se em perigo também a paz.” Tanto uma quanto outra, estão bem no fundo do coração de cada pessoa e se constituem em patrimônio de todos. “Indivíduos, fa­mílias, comunidades, nações, todos são chamados a viver na justiça e a trabalhar pela paz. Ninguém pode eximir-se desta responsabilidade.”

João Paulo II também lembrava que a justiça é, ao mesmo tempo, virtude moral e conceito legal. Se por vezes, ela é “representada numa figura de olhos vendados, é próprio da justiça estar atenta e vigilante, para garantir o equilíbrio entre di­reitos e deveres, e promover a partilha eqüitativa de ônus e benefícios. A justiça restaura, não destrói; e, antes que impelir à vingança, reconcilia. Se se obser­va bem, a sua raiz última está situada no amor, que tem a sua expressão mais significativa na misericór­dia. Por isso, a justiça, separada do amor misericordioso, torna-se fria e cruel.” É ela que preserva as relações entre as pessoas e os povos.

4. Cristo é a nossa paz, pois destruiu o muro entre judeus e gentios, trazendo a paz para todos (Ef 2,14-18). Ele foi anunciado como Príncipe da Paz, especialmente pelo mesmo profeta Isaías. Em seu nascimento entre nós, os anjos proclamaram a paz a todas as pessoas de boa vontade. Ao enviar seus discípulos em missão, recomendou-lhes que, ao entrar em qualquer casa, transmitissem a paz  (Lc 10,5-6). Assegurou deixar-nos a paz, porém não como o mundo a dá (Jo 14,27). A paz de Cristo é dinâmica, é fruto da opção pelo seu Reino. Opção que causará divisão até mesmo no seio da família, pois é necessário ter um amor maior por Ele do que pelos próprios familiares (Mt 10,34). No dia da ressurreição, transmitiu a paz aos seus discípulos, ainda de portas trancadas no lugar em que se encontravam, por medo dos judeus. Foi um grande presente pascal, unido ao do Espírito Santo, dado a eles para perdoarem os pecados.

Cristo é nossa paz e pode dar-nos a verdadeira paz porque veio para cumprir toda a justiça, como declarou a João Batista ao apresentar-se a ele no rio Jordão, onde batizava. Pode dar-nos a paz porque nos reconciliou com o Pai e entre nós.

Na citada mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1998, João Paulo II ressalta que o coração da mensagem evangélica é Cristo, paz e reconciliação para todos.

5. Como discípulos de Cristo, a Ele configurados pelo batismo, devemos ser construtores da paz. E o seremos pela prática da justiça evangélica, que inclui o amor, a misericórdia, a solidariedade, a denúncia profética de tudo o que fere a dignidade humana, especialmente a miséria na qual se encontram milhões de irmãos e irmãs nossos. Na mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano, Bento XVI lembrou que a construção da paz exige o combate à pobreza, pois ela é um dos fatores que favorecem e agravam conflitos, até mesmo conflitos armados. Para ele, a situação de extrema pobreza em que vivem populações inteiras é séria ameaça à Paz. Para superar as consequências perversas da pobreza, é indispensável a solidariedade global, com um código ético comum, para superar as injustiças existentes no mundo e as violações dos direitos humanos delas decorrentes.

 

 

Erexim, 11 de fevereiro de 2009, 17° Dia Mundial do Doente.

 

Pe. Antonio Valentini Neto – Pároco da Catedral São José.

 

 

 

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