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Campanha da Fraternidade 2010 - Ecumênica
Textos diversos sobre o tema Economia e vida
PAPA AOS BRASILEIROS: É PRECISO SE LIBERTAR DA ESCRAVIDÃO DO DINHEIRO Cidade do Vaticano, 18 fev (RV) – Leia a seguir, na íntegra, a mensagem de Bento XVI para a abertura da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010. Ao Venerado Irmão D. Geraldo Lyrio Rocha Presidente da CNBB e Arcebispo de Mariana (MG) Com a quarta-feira de cinzas, volta aquele tempo favorável de salvação, que é a Quaresma, com seu apelo insistente: "Reconciliai-vos com Deus" (2Cor 6,2); brado este, que deve ressoar nos lábios daqueles que anunciam a Palavra de Deus: "Encarregarei os meus ministros de anunciar aos pecadores que estou sempre pronto a recebê-los, que a minha misericórdia é infinita" (Carta para a proclamação de um Ano Sacerdotal, 16/VI/2009). Estes sentimentos divinos foi confiado ao Santo Cura d'Ars, que, no seu tempo, soube transformar o coração e a vida de muitas pessoas, porque conseguiu fazer-lhes sentir o amor misericordioso do Senhor. Eu desejo o mesmo sucesso às Igrejas e Comunidades Eclesiais no Brasil que, este ano, decidiram unir seus esforços para reconciliar as pessoas com Deus, ajudando-lhes a libertarem-se da escravidão do dinheiro. É que, como lembra a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010 – citando palavras de Jesus -, "Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro". Alegrando-me com tal propósito de conversão, recordo que a escravidão ao dinheiro e a injustiça "tem origem no coração do homem, onde se encontram os germes de uma misteriosa convivência com o mal" (Mensagem para a Quaresma 2010, 30/X/2009). Por isso, encorajo-vos a preservar no testemunho do amor de Deus, do Filho de Deus que se fez homem, do amor agraciado com a vida de Deus, do único bem que pode saciar o coração da gente, pois, "mais do que de pão, [o homem] de fato precisa de Deus" (Ibid). Conseguireis assim, fazer frente ao "deserto interior" de que falei no início do meu ministério petrino, convidando a Igreja, no seu conjunto, a "pôr-se a caminho, para conduzir as pessoas fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude. (...) Nós existimos para mostrar Deus aos homens. E só onde se vê Deus, começa verdadeiramente a vida" (Homilia, 24/IV/2005). Se "a boca fala daquilo que o coração está cheio" (Mt 12, 34), podeis conhecer vosso coração a partir das vossas palavras. "Reconciliai-vos com Deus", de modo que as vossas palavras sirvam sobretudo para falar de Deus e a Deus. Implorando as maiores bênçãos de Deus sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010, aproveito a ocasião para enviar aos meus irmãos e amigos do Brasil cordiais saudações com votos de todo bem Vaticano, 8 de fevereiro de 2010 Benedictus XVI . Mensagem do Conselho Mundial das Igrejas para a CF2010 Amigos e amigas, estimadas irmãs e estimados irmãos em Cristo! Chegamos a mais uma Campanha da Fraternidade Ecumênica. A Campanha da Fraternidade é, acima de tudo, um gesto concreto de solidariedade da família cristã. Como aconteceu em 2000 e 2005, estamos reunidos como família ecumênica nesta iniciativa que mobiliza recursos vindos de todos os cantos do país e os canaliza para projetos de ajuda humanitária e desenvolvimento. Quanto maior for nossa mobilização, maior será o número de pessoas que estaremos ajudando direta e indiretamente com nossos esforços. Como das vezes anteriores, a Campanha da Fraternidade Ecumênica este ano também tem um tema para reflexão: “Economia e Vida”. E, inspirados pelo texto do Evangelho de São Mateus 6.24, relembramos o alerta do próprio Cristo acerca do perigo de pretendermos servir tanto a Deus como ao dinheiro. O que é impossível, pois se servirmos ao dinheiro, já não poderemos servir autenticamente a Deus. Num mundo de relações econômicas cada vez mais complexas e carentes de referenciais éticos que priorizem a dignidade humana, a reflexão e a ação das igrejas cristãs tem a capacidade de desempenhar um papel profético e de articulação de uma nova compreensão da economia para que esta esteja, como deve ser, a serviço da vida. O Conselho Mundial de Igrejas, que reúne 349 igrejas do mundo todo, representando mais de meio bilhão de cristãos, está engajado nesta reflexão, questionando as interrelações entre riqueza e poder, que geram injustiça e pobreza, além de lesar gravemente a boa criação de Deus. Esta é, portanto, uma causa que mobiliza a família cristã não só no Brasil, mas ao redor do mundo todo. A Campanha da Fraternidade Ecumênica é uma oportunidade singular para o exercício da solidariedade cristã consciente e para o fortalecimento do perfil participativo de todas as nossas comunidades na transformação deste mundo marcado por tanta violência e tamanhas injustiças. As coletas da Campanha constituem-se no canal mais direto de engajamento e expressão desta solidariedade. Por isso, quero conclamar a todas e todos vocês a estarem atentos aos calendários e programas de suas comunidades e paróquias, para não perderem esta oportunidade. Em nome do Conselho Mundial de Igrejas, quero desejar a todos nós um 2010 na paz de Deus, e que este ano seja marcado pela solidariedade ecumênica em torno desta iniciativa e da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos na semana que antecede Pentecostes. Boa Campanha! P. Dr Walter Altmann - Presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Moderador do Conselho Mundial de Igrejas. . Quaresma: o dinheiro não é nosso Deus Com a quarta feira de cinzas, iniciamos o tempo litúrgico da Quaresma, que nos prepara para a celebração da Páscoa, a festa principal da Liturgia e o mistério central de nossa fé: Mistério redentor da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, mediante o qual a humanidade alcança o perdão, é reconciliada com Deus e recebe a vida nova no Espírito Santo. A celebração do “Mistério Pascal”, sobretudo no Sagrado Tríduo Pascal, é precedida por este “tempo favorável”, especialmente propício para nos voltarmos para Deus com renovada atenção e empenho. Na bênção das cinzas já aparece indicado o sentido deste tempo: é um caminho, cuja meta está mais adiante; os fiéis são estimulados e conduzidos para que, “prosseguindo na observância da Quaresma, possam celebrar o Mistério Pascal do vosso Filho”. Nossa experiência humana mostra que somos pecadores, frágeis criaturas, sujeitas a frequentes desvios e quedas no caminho; somos tentados a esquecer Deus, a nos deixarmos levar pela “soberba da vida”, que coloca Deus de lado e nos leva a pautar nossa existência sem Deus. A solicitação tentadora de Adão e Eva no paraíso continua sempre atual: “Sereis como deuses”. Esta é a grande tentação do homem: Não reconhecer sua relação intrínseca com Deus, pretender viver sem Ele e até colocar-se no lugar de Deus. A revelação bíblica e nossa fé cristã ensinam que Deus não aceita a idolatria e condena a atitude soberba do homem; mas, ao mesmo tempo, é compassivo e misericordioso com o pecador arrependido, que se volta com atitude contrita para Ele. Por isso, desde o primeiro dia da Quaresma, a Igreja chama à conversão, o que significa, literalmente, a voltar-se novamente para Deus; chama também à penitência e à renovada adesão a Jesus Cristo e seu Evangelho, como sinais da conversão sincera. A imposição das cinzas é acompanhada com as palavras – “convertei-vos e crede no Evangelho”: É Jesus Cristo que nos mostra o caminho para Deus e nos põe em comunhão com Ele. A conversão conta com a graça de Deus mas também supõe nosso esforço de superação da auto-suficiência, mediante a penitência, o conformação de nossa vida com a Palavra de Deus (obediência filial a Deus), o arrependimento dos pecados e o reconhecimento humilde da misericórdia de Deus. Todos esses passos aparecem bem na parábola do “filho pródigo”. Neste ano, a Campanha da Fraternidade nos convida a aprofundar, durante a Quaresma, o tema - “economia e vida”, e o lema - “vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24). A situação social e econômica do nosso tempo desafia a nós, cristãos, como a todas as pessoas, a se colocarem seriamente o problema: Se as atividades econômicas pessoais, da sociedade como um todo e as do Estado estão, de fato, a serviço da fraternidade e da vida, ou estão sendo campo de profundas injustiças, de dor e de morte? De fato, essas atividades, muitas vezes, tornam difícil e até sufocam a vida de tantas pessoas, amplas camadas sociais e de inteiros povos, que continuam na pobreza, à margem do desenvolvimento verdadeiro e privados dos bens necessários à vida digna. Sobre isso também tratou o papa Bento XVI na sua recente e importante encíclica social Caritas in veritate (A Caridade na Verdade). O lema da Campanha coloca o dedo na ferida: A avareza, que é a busca ávida dos bens desta vida, como se eles fossem o objetivo último do viver humano, leva o homem a passar por cima de tudo para obter e possuir esses bens. É Jesus quem diz: “não podeis servir a Deus e ao dinheiro”, qualificando o apego avarento às riquezas como uma idolatria, incompatível com o primeiro mandamento da lei de Deus: “Adorarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua inteligência, e somente a Ele servirás”. De fato, se não cuidamos, os bens deste mundo, numa palavra, o dinheiro, podem tomar tanto as nossas atenções, nossos esforços e nosso tempo, que se transformam em verdadeiros “senhores” nossos. Passamos a viver em função deles e tudo por eles sacrificamos; até Deus fica em segundo plano, pois esses tirânicos “senhores” requerem toda nossa dedicação. Podem fazer-nos abandonar os mandamentos de Deus, para seguir as suas exigências e a sua lógica. E aí acontecem os pactos com práticas desonestas e com injustiças nas relações econômicas e com a insensibilidade diante da dignidade e dos direitos do próximo. As conseqüências são a corrupção dos costumes, as injustiças econômicas, comerciais e sociais, a miséria, o sofrimento de muitas pessoas e, finalmente, a morte. Os ídolos exigem holocaustos e vítimas... A vida econômica da sociedade, que envolve o trabalho, a produção, a distribuição, o consumo e a posse de bens, deveria ser o espaço privilegiado para a construção de verdadeiras relações de solidariedade e fraternidade entre as pessoas, grupos e povos; mas não é o que sempre acontece. A Campanha da Fraternidade nos convida a um sério exercício de conversão da vida pessoal e social, no tocante às atividades e às relações econômicas, para serem mais conformes ao desígnio de Deus sobre o homem e sobre o mundo. Card. Dom Odilo P. Scherer . Ekoinonia: cuidar de nossa casa - Pe. Dário * Koinonia em grego significa comunhão. Também "Economia" e "Ecologia" são palavras de origem grega: respectivamente "dar regras à casa" e "estudar a casa". Há uma grande diferença, porém, entre quem considera essa casa ‘sua’, particular e egoisticamente, ou ‘nossa’, existente antes de nós, recebida em dono com o pedido de devolvê-la aos outros em mesmas ou melhores condições. É importante, então, insistir sobre essa pertença coletiva: eis a palavra "Ekoinonia", que poderia significar "nossa casa comum", à qual devemos cuidado e dedicação. Ao abrirmos uma Campanha da Fraternidade sobre economia, escrevemos esse artigo desde uma realidade ecologicamente muito impactada por um modelo econômico violento: a região amazônica do oeste do Maranhão. Gostaríamos de oferecer algumas pinceladas a respeito da estreita ligação entre economia e ecologia, buscar algumas referências evangélicas e apresentar pequenos ensaios para a gestação de novos modelos. Injustiça econômica e injustiça ecológica A maior injustiça econômica, ainda evidente em muitos contextos do mundo e do Brasil, é o distanciamento progressivo entre os ricos e os pobres, a conhecida ‘tesoura’ da disparidade, que vai se abrindo como diz o evangelho: "Há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós" (Lc 16,26). O ciclo de injustiça sócio-ambiental começa com a concentração de renda e das terras; a falta de oportunidades gera condições indignas de trabalho e migrações desregradas. Em conseqüência disso, os ‘grandes’ e os ‘pequenos’ aproximam-se ao meio ambiente com sua ganância ou extrema necessidade; paradoxalmente, assim, ambos agridem a criação sem medida nem planejamento. A terra não é mais percebida como ‘nosso chão’, mas como esponja a ser sugada o máximo possível e depois abandonada, rumo a novas frentes de exploração. Isto aparece com clara evidência na cidade em que vivemos, Açailândia, oeste do Maranhão. Nossa região ainda pertence ao bioma amazônico, mas nada mais hoje lembra que aqui, até 30 anos atrás, era floresta. Houve uma rápida sucessão de ciclos econômicos desgastantes e desregrados: o ciclo da madeira nobre, das serrarias, do carvão, da pastagem e da siderurgia, da monocultura do eucalipto. Em três décadas, uma revolução econômica e ecológica comprometeu quase definitivamente um território que por milênios tinha hospedado a maior fonte de biodiversidade do mundo. Em toda nossa região pré-amazônica, o arco de desmatamento caminha rápida e inexoravelmente rumo ao norte. A regra básica subentendida por essas violações é a negação do espaço: essa economia ‘joga as pessoas fora de casa’. É óbvio, portanto, que cada vez menos pessoas possam dizer ‘essa casa nos pertence, vamos cuidar dela’. Ao contrário, grandes maiorias acabam vivendo à margem da vida econômica, invisíveis porque não produzem nem consomem, afastados de seus territórios de origem pela privação do espaço que tentamos descrever. Em nossa visão, essas massas de migrantes excluídos de suas terras engrossam as filas dos ‘prófugos ambientais’ em busca de um novo chão e novos equilíbrios de vida. Compreendemos assim a profecia das palavras evangélicas que resgatam o tema da ‘ekoinonia’: "Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fosse assim, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós". (Jo 14,2). A preocupação constante de Jesus é devolver às pessoas seu espaço vital, uma moradia "assim na terra como no céu", cuidando da casa comum. Crise econômica e crise ecológica: a noção de limite O ano de 2009 trouxe dois sinais críticos: o desmoronamento da economia global e a falência do encontro de Copenhagen sobre as mudanças climáticas. Dois cataclismos simultâneos: o esgotamento do sistema econômico e o esgotamento dos recursos naturais. Em poucos meses, percebemos com bastante evidência que esse modelo de ‘desenvolvimento’ não pode continuar assim. Apesar disso, parece que a oligarquia ao poder entenda somente replicar o mesmo modelo: "O desenvolvimento está em crise? A única saída é incentivar o crescimento". Esse refrão constante chega a negar a noção de limite. Em campo econômico os países ricos exportam a produção em regiões onde o custo do trabalho é menor e incentivam o consumo injetando recursos públicos nos sistemas em crise. Em campo ecológico assistimos à mesma negação do limite, pela busca e abertura de novas fronteiras de exploração, a revisão dos limites de reserva legal, o desrespeito das condicionantes nos licenciamentos ambientais (cada vez mais numerosos, rápidos, com estudos de impacto ambiental preparados em poucas semanas), os novos projetos de mineração e produção de energia... Para garantir sua riqueza contra o assédio dos pobres, muitos países devem erguer muros de defesa e separação. Ao mesmo tempo, porém, para manter esse patamar os ricos precisam abater outros muros, que a própria natureza coloca para se defender do assédio dos homens. Admitimos a importância de nos proteger e colocar limites para outros não sugarem nossas riquezas, mas não aceitamos esses mesmos limites impostos à ganância de quem suga a natureza. Quanto é evidente a correspondência entre concentração de renda e constante expansão da violência social e ambiental! Os caminhos da ekoinonia A Bíblia aponta à noção de "Jubileu", um ano sagrado em que se juntam os valores do descanso e da redistribuição. "O sétimo ano será um sábado, um descanso absoluto para a terra, um sábado em honra do Senhor: não semearás teu campo nem podarás tua vinha. (...) O que a terra der durante o ano de descanso servirá de alimento a ti, teu servo, tua serva, teu empregado e ao agregado que moram contigo" (Lv 25,3s). Há uma incrível e fascinante correspondência: o tempo sagrado de Deus é ditado pelos ponteiros da economia e da ecologia, da distribuição dos bens e do respeito da terra! Com razão o papa Bento denuncia que a atual crise global é expressão de uma crise ética bem mais profunda: está em discussão o inteiro modelo de desenvolvimento, o perigo da vida entendida como contínuo e irresponsável crescimento individual. É urgente repensar o mundo à medida da profecia jubilar, que coloca limites e dá direções éticas ao desenvolvimento. As palavras-chave para declinar isto na história são "sobriedade" (equilíbrio com tudo que co-existe conosco) e "descentralização" (devolução do espaço e das oportunidades aos pequenos). É possível, através disso, efetivar uma verdadeira "reciclagem da riqueza": não mais voltada para o consumo, mas para a geração do bem comum. O próximo passo da evolução da espécie humana, portanto, será aquele da economia de acumulação à economia do dono. Em nossa cidade de Açailândia e em toda a região de Carajás estamos tecendo redes de ação e propostas econômicas nesse estilo. Em parceria com outros movimentos, fazemos experiência da assim chamada "blue-green alliance": sindicatos e movimentos ambientalistas finalmente unidos frente à Vale do Rio Doce, em busca de um sistema de trabalho, produção e relação com a natureza realmente sustentáveis. Objetivo é forçar a empresa a uma revisão dos parâmetros de investimento e lucro, onde sejam contempladas variáveis novas na avaliação de conveniência de cada empreendimento: não mais o lucro acima de tudo, mas a aplicação do paradigma de ekoinonia, para uma ‘nossa casa comum’ à medida do sonho de Deus.
. O novo deus - Flávio Tavares - Jornalista e escritor, Zero Hora, 21/02/10 A rotina nos anestesia e, na repetição, cria a ilusão de estável normalidade. Podemos estar diante do precipício mas, acostumados a vê-lo a cada minuto, não temos ideia da queda que nos espera se dermos um passo à frente. Nada é mais perigoso do que os hábitos que se apoderam de nós como oculto invasor noturno, que não percebemos nem notamos que nos assalta e nos domina. Nada mais benéfico, portanto, que nos puxem pelo braço e nos mostrem o abismo, como fez agora a Campanha da Fraternidade, ao chamar a atenção para a devastação ética e comportamental criada pela ambição exibicionista da sociedade de consumo. Ou do consumismo como ideologia e norma de vida. Originalmente promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) da Igreja Católica, juntaram-se à campanha as igrejas Evangélica de Confissão Luterana, Anglicana, Presbiteriana, Cristã Reformada e Ortodoxa de Antioquia, no arco que integra o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil. O lema neste ano é um versículo do Evangelho de Mateus, ao difundir o pensamento de Cristo: “Não podemos servir a Deus e ao dinheiro”. O bispo de Rio Grande, dom José Mário Stroher, presidente regional da CNBB, resumiu a reflexão crítica da campanha: “Tudo entre nós está a serviço do consumo; dos bens às drogas tudo virou instrumento do dinheiro para concentrar ainda mais dinheiro, transformando o ser humano num predador”. - O meio ambiente é a primeira vítima desse frenesi consumista, em que só o que multiplique cifrões é visto como normalidade. Rios degradados pela poluição industrial, ar infectado pelos gases, alimentos contaminados por agrotóxicos, nada dessa pestilência importa se gerar lucro! Está em jogo, porém, a obra fundamental da Criação – a vida. Ou a natureza que permitiu o desenvolvimento da vida. Assim, nada mais natural que as igrejas critiquem um estilo de vida que cultiva o hedonismo e, em consequência, desemboca na extinção da vida em si. No fundo, as igrejas cristãs fazem uma crítica profunda do modelo de capitalismo predatório e consumista que entrou pelo século 21 com ímpeto especulativo sem limites (a crise financeira de 2008, que ainda não terminou, mostrou o que é a especulação). Não se trata de ação oportunista para ocupar o espaço que a medíocre política partidária abandonou. Há muito a Igreja desconfia do capitalismo e o vê com olhos críticos: na Idade Média, a usura era um pecado terrível e os usureiros da época eram os banqueiros de hoje. - No início do século 20, um sacerdote alemão percorreu o interior do Rio Grande (em lombo de mula) fundando cooperativas de crédito entre os pequenos agricultores. As “Volkskassen” orgulhavam-se de não terem lucro, ou de lucro ínfimo, indispensável apenas a reinvestimentos de socorro à lavoura. Algumas dessas “caixas populares” cresceram (como o Banco Agrícola e Mercantil, fundado O escândalo brutal, porém, é o do consumismo em si, que torna obsoleto amanhã o computador ou o telefone celular comprado hoje. E, na orgia desenfreada, o menino pobre de rua mata para roubar o tênis “de marca” de outro guri como ele. Nesse turbilhão, uns devoram aos outros. Os marginais nos tiroteiam no semáforo ou em nossas casas. Os corruptos da política já roubam diretamente, filmados pela TV. Venha de onde vier, todo dinheiro vai para o altar do novo deus. O deus da nova religião fanática, o consumismo. . Deus ou o Dinheiro? - Selvino Heck * Um grande jornal do sul fez a seguinte manchete, em letras garrafais, na quarta-feira de cinzas, dia do lançamento da Campanha da Fraternidade/2010: "Igrejas se unem em crítica à economia". Nas matérias internas escreve: "A Campanha da Fraternidade de 2010 coloca a partir de hoje a ética cristã em guerra com o espírito do capitalismo. Na mira de bispos, pastores e reverendos figuram inimigos como a ânsia por lucro, o agronegócio, o capital especulativo, o consumismo e o sistema financeiro internacional. Uma análise dos documentos e materiais da Campanha da Fraternidade deste ano revela uma sintonia com o discurso adotado por entidades como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ou eventos como o Fórum Social Mundial". A colunista política do mesmo jornal intitula sua análise: "Utopia nas igrejas". E escreve: "Com o tema Economia e Vida e idéias que parecem ter saído de documento do Fórum Social Mundial, do programa de um partido socialista, de um congresso de estudantes ou mesmo de uma reunião do MST, a Campanha da Fraternidade 2010 tem potencial para acender polêmicas em todos os cantos do país. O slogan ‘Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro’, extraído do Evangelho de São Mateus, dá uma idéia do que se ouvirá nas igrejas e templos durante a quaresma. Tudo o que os organizadores da campanha propõem para ocupar o lugar dos bancos, da globalização e do agronegócio -cooperativas, redes solidárias, agricultura familiar e redes de microcrédito- tem espaço na sociedade, mas como uma opção a mais, não como substituto. Lutar contra a globalização é remar contra a maré: ela está na vida dos fiéis de qualquer credo". Mais uma vez, a demonização e a criminalização dos movimentos sociais é a pauta principal de setores da grande mídia. MST e Fórum Social Mundial são apresentados como inimigos do povo e da pátria e, por associação, as igrejas cristãs que participam e organizam a Campanha da Fraternidade. Ao mesmo tempo são apresentados como românticos incuráveis, que têm sonhos irrealizáveis e, vejam só, ainda falam em ‘utopias’. Nem parece que o mundo atravessa a pior crise econômica dos últimos 70 anos, com quebra de bancos e empresas, desemprego em massa nos países ricos, empobrecimento da população, fruto do lucro desmedido, da ganância desenfreada, do consumismo, da financeirização da economia e das teses neoliberais do Estado mínimo e do mercado livre e absoluto. Vale a pena (re)ler o Evangelho de São Mateus e (re)descobrir o contexto de sua radicalidade. A afirmação de Jesus - Ninguém pode ser vir a dois senhores, porque ou aborrecerá um e amará o outro, ou apreciará o primeiro e desprezará o segundo. É impossível servir a Deus e ao dinheiro - vem no mesmo capítulo O tema da Campanha da Fraternidade/2010, promovida pelo Conselho das Igrejas Cristãs - CONIC -, formado pela Igreja católica, pela Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, pela Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, pela Igreja Presbiteriana Unida do Brasil e pela Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, coloca o dedo na ferida. Estamos em tempos em que o capital e o sistema que o sustenta, o capitalismo, santificam o individualismo, a ganância, o consumismo, desprezando valores como a solidariedade, a partilha, o fazer coletivo. Tempos em que o meio ambiente e a natureza não servem mais à humanidade como fonte de bem viver, mas apenas como lucro e acúmulo de riqueza, levando ao aquecimento global, aos desastres e desequilíbrios naturais, à falta de água e ao ar irrespirável. Urge, pois, como diz Campanha da Fraternidade, "denunciar a perversidade de todo modelo econômico que vise em primeiro lugar o lucro, sem se importar com a desigualdade, miséria, fome e morte; educar para a prática de uma economia de solidariedade, de cuidado com a criação e valorização da vida como o bem mais precioso; conclamar as Igrejas, as religiões e toda a sociedade para ações sociais e políticas que levem à implantação de um modelo econômico de solidariedade e justiça para todas as pessoas." A Economia Solidária, com seus milhares de grupos, cooperativas e redes espalhados por todo Brasil, é uma possibilidade de "pensar outra economia rumo a outro desenvolvimento, uma outra economia possível", com base em valores como a cooperação, a autogestão, solidariedade, "construindo a produção sustentável, o comércio justo, o consumo solidário". Para isso, é preciso incentivar as trocas solidárias, as cooperativas de crédito, os bancos comunitários, o microcrédito solidário, os fundos rotativos solidários. Além disso, propõe a Campanha da Fraternidade, é preciso construir uma educação e cultura solidárias, a partir de experiências existentes como os Centros de Formação Não é crime sonhar e alimentar utopias, fortalecendo uma economia a serviço da vida. No mundo de hoje, elas são urgentes, necessárias e, principalmente, possíveis. [Selvino Heck é da Coordenação nacional do Movimento Fé e Política].
. Economia e Vida (I): a missão - Jung Mo Sung, Professor de pós-graduação em Ciências da Religião Nas próximas semanas, uma boa parte das comunidades católicas e de outras Igrejas que participam da Campanha da Fraternidade Ecumênica vai começar a debater sobre "economia e vida". Eu gostaria de contribuir nessa discussão com uma série de artigos (espero que eu possa manter o ritmo semanal) sobre o tema da CF. Quero começar com a pergunta: qual é o assunto central da CF? Muitos poderão responder rapidamente que é a economia. Respostas rápidas assim podem nos levar a repetir os velhos esquemas mentais e nos fazer a reduzir a CF a discussões sobre temas e questões econômicas, como por ex., o desemprego, pobreza, economia solidária etc. Entretanto, o tema proposta pela CF não é economia, mas sim a relação entre "economia e vida", vista na perspectiva da fé cristã. Eu gostaria de destacar aqui duas dimensões dessa relação: a) a materialidade da vida; b) o aspecto teológico-espiritual da economia. Há em muitas tradições religiosas, seja do Ocidente ou do Oriente, uma tendência de "espiritualizar" a noção de vida. Por exemplo, quando cristãos falam da salvação, uma grande parte pensa na salvação da alma. Isto é, estão preocupados com a vida eterna da alma. A vida que interessa realmente é a eterna de um "ser incorpóreo" (sem corpo). Com isso, a noção de vida vai se "espiritualizando" (no mal sentido), perdendo a sua dimensão corpóreo-material. Por isso, a missão das igrejas se concentra na evangelização ou na Pregação da Palavra entendidas como não tendo relação com aspectos materiais e econômicos da vida humana. A ação ou preocupação social em favor das pessoas pobres ou em necessidade se torna um complemento secundário à missão. O mais importante seria a salvação da alma. Essa é uma das razões pela qual muitos grupos religiosos não se interessam pelo tema ou questões da economia nas suas discussões ou preocupações religiosas. Em grupos assim, o tema da CF deste ano não é importante para missão das Igrejas e será esquecido logo após a Campanha, se é que não será deixado de lado até mesmo no período da Campanha. Essa separação é reforçada também, mesmo que inconsciente ou não intencionalmente, por grupos que assumem, em nome da sua fé, lutas econômicas e sociais, mas não conseguem elaborar um discurso religioso-espiritual capaz de articular de modo coerente a relação economia e fé. Esses grupos tendem a justificar as suas lutas e preocupações em nome da ética (bem-comum) ou da doutrina social da Igreja, mas não em relação à evangelização, salvação ou missão da Igreja. Infelizmente, muitos cristãos atuantes no campo econômico-social-político têm dificuldade em falar sobre evangelização, salvação ou missão, como se isso não fizesse parte do "cristianismo de libertação" ou como se "libertação" não tivesse muito a ver com salvação. (Provavelmente uma boa parte da responsabilidade disso cabe a teólogos, assessores e formadores). A CF deste ano deve ajudar as comunidades a tomarem mais consciência da materialidade da vida e da íntima relação entre essa dimensão e a salvação. A Bíblia, diferentemente da filosofia grega que divide o ser humano É pela mesma razão que Jesus disse que veio para que todos nós tenhamos vida e a tenhamos em abundância (cf. Jo 1010), assim como nós celebramos na eucaristia a memória de Jesus, que viveu e lutou para que a mesa compartilhada fosse uma realidade para toda a humanidade e, por isso, deixou o seu corpo como comida e o seu sangue como bebida. E na missa católica apresentamos, na oferta, "o pão que é fruto da terra e do trabalho do homem". A vida humana depende do trabalho e da "natureza", depende também de como funciona a economia. E salvar a vida contra as forças da morte e contra as mentiras (8º. mandamento, na versão da Igreja Católica e 9º na versão das Igrejas protestante) e idolatrias que justificam essas mortes em nome de falsos deuses das (2º/3o. mandamento) é a missão do cristianismo e das igrejas. Se perdermos de vista a dimensão material-econômica da vida, perdemos de vista o ser humano real e concreto e, assim, perdemos o núcleo da missão cristã e o que faz valer a pena sermos cristãos hoje, apesar de tudo. (No próximo artigo, o aspecto teológico-espiritual da economia). (Autor, entre outros, de "Se Deus existe, por que há pobreza?", Ed., Reflexão). -. Economia e Vida (II): Deus e ídolos na economia - Jung Mo Sung No artigo anterior, eu tratei da "materialidade da vida", que é um dos aspectos fundamentais do tema da CF deste ano: "Economia e vida". Neste artigo, eu quero continuar a reflexão abordando um segundo aspecto, "o aspecto teológico-espiritual da economia". À primeira vista, falar em aspecto teológico-espiritual da economia soa estranho para a maioria da população. Pois a economia trataria das questões materiais e a teologia e a espiritualidade, das questões imateriais. Esta visão que separa e opõe a economia da teologia e espiritualidade é uma característica do mundo moderno, que separou os campos da vida social (por ex, o campo econômico e o religioso) de uma forma que os vê como independentes e autônomos. E, estranhamente, muitos dos grupos religiosos que se opõem ao mundo moderno assumem essa separação moderna como algo "natural" ou "divino". A afirmação de Jesus, "Ninguém pode servir a dois senhores. ... Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro." (Mt 6,24), mostra que na tradição cristã, e nas sociedades antigas, há uma relação entre a economia e teologia. E aqui é preciso prestar atenção: não é relação entre economia e ética ou entre a economia e a doutrina social da Igreja, mas sim entre economia e teologia! Jesus coloca uma disjuntiva: servir a Deus ou a Dinheiro. Isto é, Jesus mostra que dinheiro pode ser e foi colocado no mesmo nível de Deus. Por isso, há relações de seres humanos com o dinheiro que se tornam uma questão teológica, uma questão de discernimento entre o Deus verdadeiro e o deus falso, ou ídolo. O que as Igrejas cristãs fazem normalmente, quando tratam das questões econômicas, é propor uma doutrina social, que costuma não ter o mesmo status de teologia. É como se fosse uma aplicação derivada da teologia aos problemas do mundo social, uma aplicação que não faria parte da essência da reflexão teológica e da evangelização. Entretanto, Jesus, ao colocar a oposição entre o "servir ao Dinheiro" e o "servir a Deus", eleva a questão econômica ao coração da teologia e da evangelização. Porém, é preciso tomar outro cuidado. Jesus não condena dinheiro ou economia de uma forma geral. O que ele condena é a transformação do dinheiro no sentido último da vida, no critério máximo para decidir o que é bom ou mal, quem deve viver ou morrer. Na Teologia da Libertação, essa discussão foi desenvolvida especialmente pela "escola do DEI" (Departamento Ecuménico de Investigaciones, Servir a um "deus falso", ídolo, deus que exige sacrifícios de vidas humanas, é um tema da teologia, mas também da espiritualidade. Pois "servir" a Deus ou ídolo implica em dedicar uma vida, em encontrar o sentido da vida e a motivação para viver nesse serviço. A questão central hoje, em termos de evangelização, não é anunciar a Deus a um mundo não-crente. Mas a de discernir entre uma espiritualidade e teologia que nos leva a Deus que se revelou na vida, morte e ressurreição de Jesus; e a outra que nos leva ao ídolo, que sempre se mostra como um deus poderoso, radiante e glorioso no mundo. Esta breve reflexão nos mostra que há, pelo menos, dois níveis na discussão da economia. A tarefa teológica da crítica da idolatria - que pertence ao coração da tradição bíblica - que ocorre na economia e da proposição de uma nova noção de Deus como fundamento de uma nova economia. (Max Weber chega a dizer que as ciências sociais devem desvelar os deuses impessoais que estão por detrás das ações na economia e na sociedade, mas não propõe uma crítica a esses deuses.) Outro nível é o do campo técnico-operacional da economia. A discussão sobre a melhor forma de combater a inflação, de aumentar o nível de emprego ou melhorar a distribuição de renda, não é do campo da teologia, mas sim das ciências econômicas. Isto é, não podemos tirar da Bíblia, da teologia, ou até mesmo da doutrina social da Igreja, críticas ou propostas no campo operacional da economia. É preciso fazer uso das "mediações", como sempre insistiu a Teologia da Libertação. Da análise da economia, desvelar os seus fundamentos teológicos e econômicos; da reflexão teológico-bíblica, dialogar com as ciências econômicas, sociais, políticas e antropológicas para ver quais as diretrizes que melhor expressam os valores da fé. Diretrizes essas que não podem ser confundidas com "receitas" ou práticas econômicas concretas, pois esse é o campo da discussão e de resultados sempre provisórios. Devemos evitar a tentação de absolutizar as "nossas" propostas econômicas, negando diálogo e debate com grupos que, mesmo tendo valores convergentes, pensam de modo diferente os caminhos concretos da economia. Por tudo isso, para uma boa reflexão teológica socialmente relevante hoje, é fundamental estudarmos as interfaces entre a teologia e economia. (No próximo artigo, espiritualidade nas experiências econômicas do cotidiano). -. Economia e vida (III): o espírito do capitalismo e a conversão - Jung Mo Sung * No primeiro artigo desta série sobre "economia e vida", eu abordei a dimensão material da vida , no segundo, a dimensão teológica da economia . Completando a primeira parte (sobre as questões de fundo desta relação), eu quero propor neste artigo algumas reflexões sobre a dimensão espiritual da economia. No passado, não tão distante, quando as pessoas se sentiam "impuras" ou, na linguagem mais contemporânea, deprimidas, iam às igrejas ou outros lugares sagrados para rezar ou participar de algum rito. A ida a um lugar sagrado e a participação em ritos sagrados lhes fazia sentir mais puras, mais fortes e dignas para enfrentar a vida. Hoje em dia as pessoas preferem ir a um Shopping Center fazer compras ou ver vitrines. E o mais interessante é que saem de lá com mais vigor e ânimo para viver. É como se o desejo de viver tivesse sido fortalecido. Não é à toa que a arquitetura dos shoppings tem muitos elementos que nos lembram templos e catedrais. Esse pequeno exemplo nos mostra que há um tipo de experiência espiritual que acontece na vida cotidiana das pessoas através do mundo da economia. Essas experiências econômico-espiritual é tão marcante nos dias de hoje que, mesmo nas igrejas a questão do consumo tem uma presença muito forte. Isso não se dá somente na já bastante conhecida e criticada teologia da prosperidade - presente no mundo protestante, evangélico e católico - que ensina que a benção de Deus se manifesta através de ou garante a prosperidade econômica. Mas também em outras manifestações como o orgulho por causa de um padre ou pastor da sua igreja vender muitos CDs ou fazer muitos shows. Padres e pastores de sucesso (espiritual-econômico?) que costumam usar roupas e carros de marcas famosas e caras estão se tornando modelos para novos candidatos ao sacerdócio ou pastorado e também para jovens cristãos. Com isso não estou querendo dizer que freqüentar um shopping ou comprar roupa de moda é viver a espiritualidade do mercado. Isso seria cair em outro extremo. O problema não está em comprar algo bom e bonito em um centro de compras (shopping center), mas em sentir-se mais digno e "puro" por causa disso. A questão espiritual não está no ato de comprar ou na mercadoria que compra, mas no sentido mais profundo que encontra e vive nessa experiência. O que esse tipo de experiência espiritual, que acontece em quase todas as partes do mundo hoje, mostra é que esta não é uma questão meramente individual, de algum erro moral ou espiritual de alguns indivíduos, mas tem raiz em uma transformação profunda que ocorreu no mundo moderno capitalista. Max Weber sintetizou isso ao dizer que a obtenção de mais e mais dinheiro se tornou o supremo bem que norteia a vida no capitalismo. Antes, as pessoas trabalhavam e lidavam com as questões econômicas em função da satisfação das necessidades de viver (a dimensão material da vida). Agora, ganhar dinheiro passou a ser a finalidade última da vida. Hoje, com a cultura do consumo, consumir e ostentar o consumo passou a ser o sentido último da vida. Por isso, quando se sentem "perdidas", "impuras" ou "menos-gente", as pessoas vão aos shoppings. Elas não têm consciência do que estão fazendo; isto é, não sabem que estão indo às compras ou ver vitrines para realizar o sentido último das suas vidas. Elas são simplesmente levadas lá por uma força maior. Assim como o capitalista que busca cada vez mais dinheiro para ganhar mais dinheiro também não tem consciência de que faz isso movido pelo "espírito do capitalismo". Da mesma forma, o pobre que se sente como não-humano, sem dignidade, porque não é capaz de consumir o que a sociedade lhe exige para que lhe reconheça a sua dignidade. Essa força espiritual - que Weber chamou corretamente de "espírito do capitalismo - que move hoje as pessoas e a sociedade para essa obsessão pelo consumo e por ganhar dinheiro sem fim é o que o Novo Testamento chama de poderes de destruição ou que Paulo chama de principados e potestades do mal. As pessoas são compelidas a viver a espiritualidade do consumo ou do mercado porque estão imersas no espírito do capitalismo. Mesmo que carregam externamente símbolos espirituais cristãos ou de outras religiões mais tradicionais, muitos estão mergulhados e movidos pelo espírito do capitalismo. Neste mundo, a conversão cristã, no nível pessoal, significa abrir os olhos para enxergar as mentiras dessa espiritualidade idolátrica (cf Jo 8,44) e perceber que os "shows da fé", por mais grandiosos que sejam, não expressam a fé de Jesus Cristo, assim como a dignidade humana não vem da riqueza ou das marcas caras e famosas. Significa também desejar encarnar o amor de Deus neste mundo, assumindo Jesus como nosso modelo de vida e de ser humano. Só que sabemos que a conversão pessoal é necessária, mas não suficiente. Precisamos também que o "mundo" se converta"! E como isso é possível? (esse será o tema dos próximos artigos.) .
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