Catedral São José - Erexim/RS
» Pesquisar no site
Campanha da Fraternidade 2010 - Ecumênica
Textos diversos sobre Economia e vida II

Textos diversos sobre Economia e vida II

Economia e Vida - Manfredo Araújo de Oliveira *

As Igrejas cristãs do Brasil que fazem parte do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs decidiram realizar este ano a terceira Campanha da Fraternidade Ecumênica. Este gesto pretende ser realizado no sentido de aprofundar nossa vida democrática, porque o que se quer na realidade é no reconhecimento pleno e explícito da laicidade do Estado dar uma contribuição para a construção de uma sociedade verdadeiramente promotora da dignidade do ser humano. Isto já se revela no testemunho destas igrejas de respeito à totalidade da existência humana e no seu empenho na busca daquele conjunto de condições sociais que possibilitam o desenvolvimento integral da personalidade humana.

O propósito da campanha já se exprime na explicitação dos objetivos fundamentais: "É necessário conclamar a todos e todas para construir uma nova sociedade, educar essa mesma sociedade afirmando que um novo modelo econômico é possível, e denunciar as distorções da realidade econômica existente, para que a economia esteja a serviço da vida". Em última análise o que se deseja é que a campanha seja capaz de mobilizar não só estas igrejas, mas as forças vivas da sociedade civil no sentido da procura de respostas concretas e eficazes às necessidades básicas das pessoas e à salvaguarda da natureza a partir de mudanças profundas, tanto a nível pessoal como comunitário e estrutural, derivadas de uma visão de mundo em que a justiça e a solidariedade constituam valores estruturantes.

Onde se situa para estas igrejas a questão de fundo que marca hoje nossas formações sociais? Na contraposição entre duas lógicas: a lógica do mercado e a lógica da vida. Em primeiro lugar trata-se de um fato: nossas sociedades têm no mercado o mecanismo central de sua estruturação, ou seja, são sociedades em que bens e serviços são vendidos e comprados, em que se produz em função da venda e da compra. No entanto se tem consciência que isto não é um fato qualquer, porque a maneira de organizar a sociedade em todos os seus níveis toca diretamente a dignidade do ser humano e sua capacidade de se desenvolver na família e na sociedade.

Por esta razão se desce a um segundo nível de indagação e se procura entender a lógica que rege este processo que é a lógica da acumulação do capital independentemente se isto conduz à destruição da natureza e à produção sistêmica da miséria de muitas famílias. Assim, chega-se à conclusão que todo este processo não está organizado em função da vida humana o que faz com que exigências humanas importantes para a vida digna não possam simplesmente ser satisfeitas através do mecanismo de mercado. É isto que permite um julgamento ético desta configuração da vida social a partir da constituição do ser humano e de sua dignidade. Numa palavra, a economia é uma dimensão fundamental da vida e por esta razão o julgamento de suas instituições e de suas políticas se deve fazer a partir de um critério básico: a maneira de elas protegerem ou destruírem a vida e a dignidade da pessoa humana.

Daí a afirmação ética básica: "Cada pessoa tem o direito fundamental à vida e, portanto, o direito a todas as coisas necessárias para uma vida de qualidade. As pessoas têm direito a viver e a satisfazer as necessidades básicas. Essas não consistem apenas em alimentação, vestuário e moradia, mas também educação, saúde, segurança, lazer, garantias econômicas e oportunidades de desenvolver todas as capacidades de que a pessoa é dotada". Ora é precisamente esta vida que está ameaçada em nossa sociedade em que viviam em 2007 10,7 milhões de indigentes (famintos) e 46, 3 milhões de pobres segundo dados fornecidos pelo Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade (IETS). A conjugação entre esta situação, a lógica do processo econômico que nos rege e seu julgamento ético nos leva a uma exigência fundamental: a busca de uma nova forma de organização social que ponha a vida humana acima dos interesses do mercado.

* Doutor em Filosofia e professor da UFC. Presidente da Adital

.

Exame de consciência, por que não? -  Pedro Gilberto Gomes - Padre jesuíta, professor e pesquisador da Unisinos, Zero Hora, 24/02/10.

Os textos da imprensa sobre a Campanha da Fraternidade 2010, da CNBB e do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, trazem, em sua maioria, a afirmação de que ela poderia ter saído do Fórum Social Mundial, de manifesto do MST, programa de um partido socialista ou congresso estudantil. Também dizem que as Igrejas, em geral, e a Católica, em particular, movem-se fora da realidade, numa utopia. Desse modo, não podem nem devem criticar a sociedade capitalista e globalizada.

Mas, afinal, uma das funções das Igrejas não é chamar atenção para distorções de nosso mundo? Isto é, ao se criticar as opções do modelo que valoriza o ter, o prazer e o poder, não se pretende simplesmente substituí-lo por outro, mas lançar luzes sobre as injustiças estabelecidas nas relações, quando o ser humano não é colocado no centro das preocupações e das ações das pessoas e das instituições. É missão das Igrejas não canonizar o modo como a sociedade se estrutura, mas lembrar valores perenes e fundamentais que não podem se subordinar aos ditames do capital, nem à impessoalidade do mercado. Toda e qualquer relação com o transcendente se expressa no modo como organizamos a sociedade. O amor acontece no aqui e no agora social.

O que se critica não é a necessidade de lucro, pois o imperativo de se alcançar um resultado operacional positivo é condição para a sobrevivência das organizações, mas que ele seja alcançado à custa do empobrecimento de muitos. O recurso à palavra de Jesus – “não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lucas 16,13) – não critica simplesmente o dinheiro, mas condena sua transformação em Deus da vida humana. Nesse sentido, não se pode servir a dois deuses.

Por outro lado, quando se diz que um documento que faz crítica social está relacionado com partidos socialistas, movimentos sociais radicais ou de esquerda, será que não estamos nos protegendo para não nos deixar tocar nem questionar por suas posições e críticas?

O que causa espécie é que os parcos escritos em defesa da Campanha da Fraternidade sejam de autoria de membros da hierarquia de suas Igrejas (este autor também). O desânimo surge ao ver que nenhum fiel tenha defendido o que é proposto a partir dos princípios milenares de sua fé. As Igrejas devem, diante de Deus, chamar seus fiéis à vivência da justiça, do amor e da fraternidade. Caso contrário, Deus pedirá delas contas sobre a conivência e omissão que tiveram na injustiça contra os pobres e os pequenos.

-.

Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro - Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapa, AP

Junto com a Quaresma começamos também a Campanha da Fraternidade. Este ano a CF é “ecumênica”, porque organizada pelas Igrejas que participam do movimento ecumênico. Aquelas igreja que, em poucas palavras, apesar das divisões, continuam acreditando e sonhando na unidade, confiando sempre na oração de Jesus: “Pai, que sejam um, como nós somos um” (Jo. 17,11b).

Com o tema Economia e Vida, a CF nos convida a refletir sobre a influência da economia na nossa vida pessoal, na vida da sociedade e também sobre a nossa fé. É por isso que no lema entram Deus e o dinheiro: “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”. São palavras que encontramos no evangelho de Mateus, quando Jesus constata a impossibilidade de amar, de verdade e ao mesmo tempo, dois senhores.

Amor verdadeiro somente para um Senhor. Ainda que façamos de tudo para disfarçar ou enganar a nós mesmos e aos outros, de fato, cada um de nós escolhe algo que motive a sua existência. Sem uma razão de vida o nosso dia a dia se torna vazio e não adianta preenchê-lo com qualquer coisa. Antes ou depois percebemos a inutilidade do que estamos fazendo, ou a infelicidade de ter jogado fora tempo, energias e, sobretudo, amor. Isso porque nós todos nos empolgamos e vivemos com intensidade o que amamos, no sentido de acreditar que aquelas coisas, atividades ou projetos nos estejam fazendo felizes e ainda mais nos farão satisfeitos ao longo da nossa vida. Todos nós precisamos crescer, estudar, trabalhar, conviver com as pessoas, com algum objetivo na vida, melhor se este for escolhido com consciência e responsabilidade por nós mesmos. De outra forma nos deixaríamos levar pelas circunstâncias, pela opinião dos outros, pelas modas. Quem não sabe o que quer, não alcança meta alguma e quem se deixa levar pelos outros está entregando a coisa mais preciosa que tem: ser o responsável da condução do barco da sua própria vida.

Hoje vivemos numa sociedade que exalta de maneira extrema o dinheiro e todo o poder que se pensa que ele proporcione; seja como sonho de bem-estar coletivo, seja como lucro de empresas e indivíduos. Temos a impressão de que tudo se transformou em mercadoria e, portanto, tudo tenha um preço. Só falta, às vezes, saber negociar. Ora, o dinheiro e o relativo lucro e poder não tem regras e menos ainda coração, a não ser aquelas leis do mercado que são as leis do mais forte, e com certeza não são as da justiça e da equidade.

Todos nós assistimos impotentes às articulações, às vitórias e derrotas da economia mundial durante a “crise” desses anos. Só deu mesmo para ver de longe o que os governos, os bancos e as empresas internacionais decidiam no sobe-desce das bolsas de valores. A maioria de nós também não entende quase nada do que está acontecendo, a não ser que perceba a gravidade da situação enfrentando aumentos de preços das mercadorias, ou até o desemprego. O que nos é proposto como solução, em geral, é o maior consumo, porque assim continuaremos a produzir – e a vender - para ter os empregos assegurados. Tudo como se fosse uma roda sem fim, e os recursos do planeta terra, que na maioria não são renováveis, fossem ilimitados. O que podemos fazer nessa situação?

A CF 2010, como sempre, é uma proposta de reflexão à luz da experiência que vivemos e da Palavra de Deus no qual acreditamos. Quando percebemos algo de errado, de desumano e de excludente para a grande maioria das pessoas, precisamos parar para ouvir o grito dos que não participam da festa, precisamos aguçar a mente e o coração para enxergar novos rumos da nossa vida pessoal como também da vida em conjunto, na luta para uma nova humanidade mais solidária e fraterna.

Não cabem aqui longas respostas a tantas interrogações, mas que seja urgente tomar algumas decisões todos nós entendemos, para não continuar a viver anestesiados pelo consumo e pela propaganda alienante. Devemos colocar em primeiro lugar a vida e a dignidade humana de toda pessoa. Precisamos humanizar a vida de todos, pobres e ricos, numa vida mais simples e austera, cheia de fraternidade e de paz.

Nesta altura quem não quer servir a Deus, sirva, ao menos, ao seu irmão com os mesmos direitos e deveres. No entanto se optar por servir ao Deus da Vida e do Amor, com certeza saberá amar mais também aos irmãos. O que não pode fazer é continuar a servir ao falso senhor que é o dinheiro. Esse ídolo levará à sua morte, a do planeta e a da humanidade inteira. Vamos mudar o rumo da história, antes que seja tarde demais.

-.

ECONOMIA E IDEOLOGIAS - D. Demétrio Valentini, Bispo de Jales, SP.

            Cada ano, a Campana da Fraternidade conta com um texto que serve de base para identificar o tema, e suas implicações com a vida das pessoas. Desta vez, sendo ecumênica, o texto foi aprovado pelas igrejas que compõem o Conic.

            O que ele pretende não é fazer uma análise exaustiva do assunto, em forma de tratado. Mas simplesmente estimular a reflexão para percebermos melhor as diversas vinculações que o tema pode ter com a convivência fraterna que a quaresma nos estimula a praticar.

           E´ bom sinal quando o texto provoca a reação dos órgãos de opinião pública, que fazem sua análise crítica da campanha. Mas não faz mal alertar que o texto não se pretende completo, nem assume posições condicionadas por critérios ideológicos.

            Como desta vez a campanha levanta um assunto que já esteve no centro dos embates políticos dos últimos séculos, nos quais se tomaram posições contrastantes em termos de organização da sociedade, parece que algumas pessoas se precipitaram em julgar o texto desta campanha como se estivesse ideologicamente comprometido.

            Assim é que alguns o consideram esquerdizante, ou filo comunista. Outros acham que ele é muito ingênuo, e não leva em conta as “leis da economia”, que tem sua dinâmica inexorável, como o capitalismo sempre fez questão de enfatizar.

            Na verdade, o texto usa do bom senso, identificando a economia como atividade humana, e como tal, sujeita em primeiro lugar a critérios éticos que a enquadram dentro de parâmetros de verdade e de bondade, e lhe indicam uma finalidade condizente com sua natureza e com a função exercida na sociedade.

            Mas sobretudo o texto procura incidir sobre o tema do ano as luzes do Evangelho, que revelam como o texto se vincula com a fé cristã, toda ela voltada para incentivar a descoberta do amor que Deus tem por nós, como Cristo o testemunhou, nos incentivando a viver este amor em forma de convivência fraterna.

            Neste sentido, o texto deste já valeria pelas duas indicações centrais, que o atravessam de início ao fim.

            A primeira delas é sobre a finalidade da economia. Poderíamos ficar com este estribilho, que reaparece a cada página: a economia deve estar a serviço da vida. Este o grande critério, o supremo princípio, o rumo apontado, a urgência indicada, o desafio a ser assumido.

            Podem dizer que é uma utopia. Que seja. Mas uma utopia que indica a direção válida que a trama diária da economia precisa tomar.

            O inverso deste princípio ajuda a mostrar a gravidade das conseqüências de uma economia que esquece, ou despreza, esta finalidade. Quando se sacrifica a vida humana, prova-se que a economia não pode se constituir em norma de si mesma, ela precisa ser normatizada por princípios que a submetam à sua verdadeira finalidade, de estar a serviço da vida de todos, a começar por aqueles que empenham sua vida nas atividades econômicas. 

            Outra dimensão clara e incisiva do texto diz respeito à ecologia. Economia e ecologia rimam entre si não só nas palavras, mas muito mais na realidade. A economia precisa respeitar o meio ambiente. Os recursos naturais não são ilimitados, como na prática se pensava até pouco tempo atrás. Nosso planeta está mostrando claros sinais de esgotamento. E´ responsabilidade de todos pensar e praticar uma economia que seja compatível com os recursos do planeta, que precisam ser preservados também em vista das gerações futuras.

            Como gesto concreto, a Diocese de Jales se propõe organizar a coleta do óleo usado de cozinha, para evitar que prejudique a natureza, e para ser colocado a serviço dos projetos sociais. Até no nome, a “economia” nasceu na cozinha, pois a palavra foi criada para evocar as “leis da casa”, que possibilitam a vida diária. Pois bem, até o óleo de cozinha nos ajuda a perceber que as “leis da casa” precisam ter em conta a “casa comum”, que é o nosso planeta.

-.

Economia e Vida (IV): a boa intenção e o sistema - Jung Mo Sung

No artigo anterior eu afirmei que, diante do sistema econômico e social em que vivemos, a conversão pessoal é necessária, mas não suficiente. Também é preciso a conversão do mundo. O problema é que a "conversão do mundo" ou de "sistemas econômicos, sociais e políticos" requer lógicas muito diferentes das conversões ou transformações pessoais. Eu quero dedicar este artigo e os próximos sobre esse assunto.

Em primeiro lugar, é preciso ter claro que a conversão do mundo não deve ser entendida como a conversão de todas as pessoas que habitam o mundo. Ainda hoje, há muitas pessoas, grupos e Igrejas que pensam que levar o evangelho ao mundo ou proclamar a conversão ao mundo significa buscar a conversão pessoal de todas as pessoas. Isto é, pensam que o mundo nada mais é que a soma de todas as pessoas; que a sociedade é resultado da soma de todas das ações e atitudes de todas as pessoas. Assim sendo, a mudança das pessoas e de suas ações levaria a mudança no mundo.

Na verdade, o mundo e os sistemas econômicos e sociais são muito mais do que a soma das ações dos indivíduos. O conceito de "sistema" pressupõe que há algo além das ações individuais ou de grupos, que a vontade e ações bem intencionadas de indivíduos ou de agentes coletivos não são suficientes para produzir resultados desejados. Mesmo que esse indivíduo ou grupo tenha muito poder.

Esse tipo de equívoco é mais comum do que se imagina. Por exemplo, muitas das críticas feitas ao governo Lula, por parte da chamada "esquerda", cristã ou não, pressupõe que ele não rompeu com o capitalismo ou não fez reformas sociais e políticas profundas por simples falta de vontade política. Como se a vontade política de um indivíduo ou grupo poderoso fosse suficiente para produzir os resultados sociais e políticos desejados.

Nós começamos a desconfiar ou reconhecer que existe algo que se chama "sistema" exatamente quando as nossas ações não produzem os efeitos desejados. As ações humanas são humanas na medida em que elas são intencionais, isto é, não são resultados meramente de impulsos determinados pelo nosso código genético. Todas ações produzem conseqüências. No caso das ações humanas intencionais produzem dois tipos de efeitos: os efeitos que estão de acordo com as intenções que moveram a ação (efeitos intencionais) e os que não estão de acordo (efeitos não-intencionais, que podem ser bons ou maus). No primeiro momento, pensamos que os efeitos não-intencionais são resultados da má execução da ação. Se o aperfeiçoamento da ação fizer desaparecer os efeitos não-intencionais, está provado que não há nada entre o sujeito da ação e os resultados esperados. Nesse caso, bastaria converter a pessoa e/ou aperfeiçoar a técnica da ação para obter as mudanças desejadas.

Mas, se mesmo o aperfeiçoamento da técnica da ação não evitar os efeitos não-intencionais, começamos a perceber que entre a ação e os resultados existe algo que interfere no processo. Esse algo tem a ver com o sistema. Começamos a perceber que as nossas ações se dão no interior de algum sistema. Um exemplo muito comum se dá quando, em uma conversação, as pessoas entendem equivocadamente o que queremos dizer. Nesses casos costumamos dizemos: "não foi isso que eu quis dizer!" A nossa intenção era comunicar uma mensagem bem intencionada que foi entendida de forma diferente da intenção e provocou, talvez, um mal-estar ou algo pior (um efeito não-intencional). No caso aqui, algo do sistema cultural e/ou do sistema de crenças e de pensamento das pessoas envolvidas interferiu na conversação e nos seus resultados.

Isto significa que não basta convencer todas as pessoas que precisamos de uma economia socialmente mais justa e ecologicamente sustentável. Também não é suficiente fazer as pessoas passarem do convencimento para mudanças nas suas ações e hábitos cotidianos. É claro que essas mudanças são necessárias e importantes, mas não são suficientes. Em uma sociedade escravagista, por ex., mesmo que todas as pessoas se convençam do mal da escravidão e os senhores passem a tratar melhor os seus escravos, o sistema permanece escravocrata. Se o sistema produtivo (economia) continua escravocrata e sem mão-de-obra livre, não há como um fazendeiro de boa intenção continuar sendo dono de fazenda e ao mesmo tempo libertar todos os escravos. Se ele efetivar a sua boa intenção, o resultado é que ele se tornará um ex-fazendeiro produtor.

Muito dos discursos em favor de um "outro mundo possível" centram fundamentalmente na tarefa de convencer as pessoas dessas necessidades. Mas, ao esquecerem ou não darem ênfase suficiente na necessidade paralela de mudança sistêmica, esses discursos acabam se tornando discursos moralistas, discursos que apelam somente para a consciência moral das pessoas. No campo dos problemas econômicos e sociais, boas intenções e consciência ética são importantes, mas não suficientes se não houver ações políticas que geram transformações no sistema sócio-econômico-político. (No próximo artigo, o sistema econômico e a divisão social do trabalho.)

.

Economia e Vida - Selvino Heck *

"Nunca vi uma situação tão ruim. O volume de gente que nos procura desde o início da recessão aumentou drasticamente e ainda não começou a diminuir", disse o pastor da igreja de St. Paul, Estado do Tennesse, EUA (FSP, B10, 22.02.10).

O Departamento de Agricultura norteamericano informa que de 2007 a 2008 o número de cidadãos americanos em dificuldade ou com falta de acesso aos alimentos necessários a uma vida saudável (em português claro, em insegurança alimentar, ou passando fome) passou de 36,2 milhões para 49 milhões, mostrando como a crise econômica afetou o país. Hoje 1 em cada 8 americanos recebe auxílio-alimentação (ou Bolsa família).

No Estado do Tennessee, a taxa de pobreza está em 15% da população e de desemprego em 11%. Na igreja de St. Paul, o crescimento no número de pessoas atendidas chegou a 80% de 2006 a 2009. Reginald Majors, que perdeu o emprego como motorista de caminhão, conta somente com a ajuda das caixas emergenciais. Ele enfrenta a chuva fina e o frio de 0°C para buscar as porções de carne, sopa, vegetais, frutas, macarrão, arroz, feijão e cereais para os quatro filhos. Diz ele: "A recessão nos atingiu duramente. Mas vou parar de buscar comida aqui assim que conseguir outro emprego."

Segundo a Red Feeding América, que fez em 2009 5,7 milhões de atendimentos emergenciais, mais de um terço dos que recebem caixas emergenciais é forçado a escolher entre comprar comida ou pagar por outras necessidades básicas, como aluguel, contas e assistência médica. Segundo Jaynee Day, diretora da agência, "a face da fome nos EUA está mudando por causa da crise. Os núcleos familiares estão triplicando, com várias gerações em uma mesma casa, o que cria novas necessidades alimentares. São novos clientes. Não é gente sem teto que vem recebendo comida há anos. Perdemos muitos empregos por aqui, especialmente no setor automotivo."

Não acontece apenas no país mais rico do mundo. A crise econômica e social também ocorre no Japão e na Europa, especialmente nos chamados PIIGS - Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, atolados no desemprego e no caos social.

As manchetes da semana falam em ‘guerra na Grécia’, onde explodiu uma greve geral envolvendo todas as categorias profissionais e todos os trabalhadores gregos. O índice de desemprego na Grécia é de 10% e pode chegar a 20%, segundo o governo. Os cartazes dos trabalhadores gregos em greve dizem: ‘Não à austeridade e ao desemprego’; ‘Não pagaremos pela crise dos ricos’; ‘O povo e suas necessidades são mais importantes que os mercados’.

Por estas razões, mais do que se justifica o tema da Campanha da Fraternidade/2010, ‘Economia e Vida’. Como diz o texto-base da Campanha, "os sistemas econômicos dominantes levam à garantia dos privilégios dos ricos e dos governantes, em detrimento dos fracos e dos humildes. O dinheiro é transformado em ídolo. O pensamento dominante sobre o desenvolvimento não considera devidamente o valor da vida nem a dos seres humanos, nem a dos demais seres a Terra, nem a do próprio planeta. O desenvolvimento, é , muitas vezes, confundido com o aumento da riqueza, a qual favorece apenas os que dela podem se apropriar. Estes não se preocupam com os outros, pensam que cada um deve se capacitar e se habilitar para abocanhar o que conseguir. Sentimentos de piedade ou solidariedade inexistem nesta forma de pensamento. O modelo econômico ao qual se vincula assenta-se no egoísmo e acredita que o progresso é gerado pela concorrência, mesmo que antiética."

Os valores do Big Brother Brasil - confinar-se numa casa por meses para ganhar uma bolada de dinheiro, a obrigação de mentir, trapacear para atingir o objetivo final, expor-se ao mundo como alguém que não se é, etc. - são os valores que levaram à crise econômica, social, ambiental e de paradigmas que o mundo hoje atravessa. E que leva milhões ao desespero e à fome, leva à violência e à guerra, leva à desesperança e à falta de fé no ser humano.

O desafio hoje é construir uma nova economia, um novo projeto de desenvolvimento, que já se desenha em alguns países, especialmente na América Latina, que se vislumbra nas experiências solidárias de milhares de grupos que, na solidariedade e na partilha, buscam o bem-viver e novas formas de produção e comercialização, sem fome, sem miséria, sem opressão, sem desigualdade.

Uma economia a serviço da vida não se mede pelos bilhões de lucro ou superávit que produz, ou pelo acúmulo de bens, móveis e utensílios dentro de casa, ou nos gastos supérfluos e sem sentido, ou no glamour estampado em revistas e meios de comunicação. A urgência e as necessidades são outras, no mundo da rápida informação global e dos gigantes econômicos que impõem suas vontades.

O retorno à simplicidade, que não significa abdicar do conforto e das coisas boas da vida, o gesto da partilha sem esperar nada em troca, o prazer de fazer coletivamente, a repartição justa dos bens produzidos, a capacidade de enxergar a dor e as necessidades do outro e da outra estão colocados como desafios da esperança e de uma utopia que constrói o Reino já a partir deste mundo.

Ou a economia gera vida para todos e todas ou leva a crises e sofrimento de muitos. Essa a escolha a fazer. A Campanha da Fraternidade/2010 está no centro desta escolha, determinante para o futuro.


* Assessor Especial do Presidente da República do Brasil. Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

 

Informativos
» Boletim Caritas (9/2007)
» Boletim Diocesano (1/2012)
» Boletim Pastoral da Juventude (11/2011)
» Cel. Dominical da Palavra (1/2012)
» Folheto Litúrgico (2/2012)
Campanhas e Eventos
» Campanha da Fraternidade
» Campanha da Fraternidade 2007
» Campanha da Fraternidade 2008
» Campanha da Fraternidade 2009
» Campanha da Fraternidade 2010 - Ecumênica
» Campanha da Fraternidade 2011
» Evangelização
» Missões
» Outras
Textos de Reflexão
» O apóstolo Paulo e a comunicação
» Fraternidade e Saúde Pública
» Análise da nova política do Brasil ante a migração haitiana
» Saudade e esperança
» A busca pela verdade e a conversão
» O poder / autoridade
Imagens
Últimas imagens postadas na galeria de fotos da Catedral
Natal 2011
- Paróquia
- Programação
- Serviços Pastorais
- Notícias
- Imagens
- Reflexão
- Diocese de Erexim
- Links
- Contato
Catedral São José
Erexim - RS - Brasil
Avenida Maurício Cardoso, 62
Cep 99700-000
Fone (54) 3321-2379

2012 - NiX Brasil . Agência Digital - Todos os Direitos Reservados.