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Campanha da Fraternidade 2010 - Ecumênica
Textos diversos 3

O dinheiro ou a vida - Selvino Heck *

Muitos já nos confrontamos com uma situação que aparece cada semana nas páginas policiais: entregar a carteira e o dinheiro, os tênis e o celular ou perder a vida. Ou um outro, a escolha, ou sem escolha, a não ser correr o risco de levar um tiro.

Já passei pelo drama do assalto. Na dúvida, corri, eles (atuam sempre em dupla) não atiraram, mas até hoje me lembro do revólver apontado para meu rosto a dois metros de distância. Estas situações-limite, porém, produzem-se também noutro sentido e dilema. Não a de contrapor o dinheiro à vida, ou perder um ou perder outro, mas o de decidir por um, o dinheiro, e perder a outra, a vida, ou optar pela vida, e deixar em segundo plano o dinheiro, ou o capital. O que escolher: o dinheiro ou a vida? Ou os dois?

O lema da Campanha da Fraternidade/2010 - ‘Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro’ (Mt 6, 24) - felizmente está dando o que falar. Vale a pena, pois, (re)ler o Evangelho de Mateus e todo capítulo 6, no meio do qual está a frase escolhida pela Campanha, e (re)descobrir o contexto de sua radicalidade. A afirmação de Jesus -‘Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou aborrecerá um ou amará o outro, ou apreciará o primeiro e desprezará o segundo. É impossível servir a Deus e ao dinheiro’ - vem no mesmo capítulo em que Jesus ensina a rezar o Pai Nosso: ‘Por isso, vocês têm que orar assim. (...) Venha o teu reino, seja feita a tua vontade na terra como no céu. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia’ (Mt 6, 9). Em seguida, Jesus fala: "Não amontoeis riquezas na terra, onde se põem a perder, porque a traça e a ferrugem as destroem, os ladrões assaltam e roubam" (Mt 6, 19). E na seqüência: "Por isso, lhes digo: Não andem preocupados por sua vida, que vamos comer, ou por seu corpo, que vamos vestir. Não vale mais a vida que o alimento e o corpo mais que a roupa? Olhem como as aves do céu não semeiam, nem colhem, nem guardam em celeiros, e o Pai celestial as alimenta. Não valem mais vocês que as aves?" (Mt 6, 25-26) E termina o capítulo: "Em primeiro lugar, busquem o Reino e sua justiça e todas as coisas boas que isso supõe" (Mt 6, 33).

Jesus não coloca em segundo lugar o alimento. Tanto que, após do falar do reino e sua vontade na terra e no céu, pede pelo pão diário. Sem pão não existe reino nem vontade de Deus a ser feita. O questionamento é outro: ele denuncia e condena o acúmulo de riquezas, porque nada acrescenta à vida e ao bem-viver. Não é possível servir a dois senhores. Ou se é escravo de um, o dinheiro e seus valores, ou serve-se outro, Deus e seus valores. Os pássaros do céu não se preocupam com estas coisas e vivem. As flores do campo crescem, embora não trabalhem e não teçam. A vida vale mais que a busca dos bens, o ser humano e seu corpo são mais importantes que os pássaros mais importantes.

Onde está a felicidade? Na busca do Reino e de sua justiça. Não está no dinheiro, não está no acúmulo de riquezas, não está em cuidar só de si próprio, esquecendo o resto. Está em Deus, que significa justiça, que significa despreocupar-se das coisas materiais enquanto centro da vida, significa não depender, para viver, do brilho dos bens ou do supérfluo das riquezas, o que leva á injustiça e à desigualdade.

Onde está o centro da vida? Quais são os valores primordiais? O que é o Reino já aqui na terra?

Estamos num mundo onde se mede a vida, o bem-estar, o desenvolvimento pela quantidade de bens produzidos, em geral nas mãos e bolsos de poucos. Estamos em tempos onde o tilintar dos números da Bolsa de Valores e os lucros anuais são os valores máximos. Ao mesmo tempo, estamos em tempos em que um bilhão de pessoas passa fome no mundo, em que guerras inúteis e sem sentido matam milhares todos os anos, em que a desesperança habita as mentes e os corações dos jovens, que se sentem amparados pelo vazio da droga e da violência inútil. Estamos em tempos em que as crises econômicas se abatem sobre os pobres e trabalhadores porque o deus mercado não resolveu todos os problemas. Estamos em tempos em que o consumo, comer e beber à farta, construir shoppings-igrejas cada vez mais suntuosos, deliciar-se no comércio do luxo, parece ser a única alternativa, o único sentido, o derradeiro sonho.

Na hora do assalto, não se trata de dar ou não dar o dinheiro para perder ou não a vida. Dê-se o dinheiro e ganhe-se a vida. O dinheiro nada vale se não houver a vida. A economia não se justifica se não consegue trazer dignidade e comida e alegria à mesa de todos e todas diariamente. A produção de bens materiais só tem sentido se melhorar a saúde, se trouxer dignidade e bem-viver, se não destruir a natureza.

A Campanha da Fraternidade/2010 faz a denúncia, mas aponta também caminhos e afirma valores que levem a novos tempos. Pode-se, por exemplo, pensar numa economia solidária, que é outro jeito de fazer a atividade econômica de produção, oferta de serviços, comercialização, serviços ou consumo baseada na democracia e na partilha, uma economia onde a cooperação, a autogestão, a solidariedade sejam a base e os valores máximos.

O dilema, em certo sentido, pode ser sim entre o dinheiro ou a vida. O dinheiro não nos salva, não salva o mundo nem a humanidade. Basta olhar ao redor, ver o que está acontecendo, ver as tragédias, ver as crises, ver a destruição de corações, corpos e meio ambiente. É preciso pois optar pela vida, sim, mas em outras bases que as atuais.

As palavras de Jesus são mesmo radicais, para escândalo e espanto de muitos. Não trazem facilidades e imediatismos. Vão à raiz dos problemas, denunciam os valores dos fariseus e as práticas dos hipócritas. Se são radicais, exigem escolhas. O Reino é essa busca utópica, mas é também onde está a felicidade, não de alguns poucos, mas de todos e todas, animais, plantas e seres humanos.

[Selvino é da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política]

* Assessor Especial do Presidente da República do Brasil. Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política

Fonte: Adital

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Vida e Solidariedade - Manfredo Araújo de Oliveira *

"Cada pessoa tem o direito fundamental à vida e, portanto, o direito a todas as coisas necessárias para uma vida de qualidade": é desta forma que o documento da Campanha de Fraternidade deste ano exprime a exigência ética básica em relação à organização da economia. Esta postura, aliás, exprime muito bem do ponto de vista ético o próprio sentido etimológico da palavra grega "economia" que significa cuidado da casa, portanto, cuidado de seus habitantes. A análise de nossa situação histórica mostra que é precisamente esta vida dos habitantes da casa do Planeta Terra que está sendo negada a partir da forma como estão configuradas a produção, o consumo, o comércio,as finanças em nossas sociedades. Isto põe a exigência de busca de uma nova forma de organização social que esteja a serviço de todos os seres humanos, portanto, que coloque o ser humano e não o capital como sujeito e fim da atividade econômica.

O documento nos coloca diante de uma situação extremamente grave, mas que constitui ao mesmo tempo o ponto de partida da elaboração de um horizonte novo que deve orientar a construção deste mundo diferente:..."não há alternativa: ou vivemos solidariamente como irmãos ou seremos todos infelizes num mundo trágico". Do ponto de vista do sentido que deve marcar atividade econômica isto desemboca na frase decisiva de Ghandi: "O teste da verdadeira organização de um país não é o número de milionários que possui, mas a ausência de fome em sua população".

O documento exprime a consciência de que o esforço de construção deste mundo alternativo pode ser considerado em primeiro lugar um ato de contracultura no sentido da contraposição a uma forma de entender a vida humana e a atividade econômica marcadas por uma cultura "do enriquecimento com exploração, da acumulação que provoca a carência de muitas pessoas e do consumismo egoísta e materialista que coloca em risco a vida na Terra". Trata-se, assim, de uma reação à cultura do Eu, do egoísmo, do individualismo como valores fundantes de nossa configuração societária.

O documento nos convida a avaliar a possibilidade e a nos engajar na construção da organização das relações dos seres humanos entre si e de suas relações com a natureza fundada em outras balizas: a solidariedade "que faz da humanidade uma família onde todos se protegem mutuamente" o que implica fundamentalmente a mudança do modelo de vida social vigente. O capitalismo transformou a competição no único modo de relação econômica. Subjacente a esta postura está uma concepção do ser humano que se entende basicamente como indivíduo de tal modo que o sentido das ações do ser humano no mundo é a busca de satisfação do interesse próprio de cada um. O bem comum se atinge na medida em que se respeita o automatismo dos mecanismos de mercado e das relações competitivas como instrumentos necessários à busca do lucro máximo. Nesta configuração da vida coletiva a liberdade deste indivíduo absoluto significa a negação e a indiferença frente à individualidade do outro o que M. Tatcher exprimiu com plena clareza com sua afirmação: "A sociedade não existe, a única realidade é o indivíduo".

O documento pressupõe outra concepção de mundo que se exprime na afirmação de que o ser humano não é nunca uma subjetividade fechada em si mesma, indivíduo puro, que em primeiro lugar está em si mesmo e depois se dirige ao outro de si, mas é constitutivamente aberto ao grande todo, ao universo enquanto tal, portanto, abertura radical à alteridade. A primeira forma de alteridade toma a figura de natureza que enquanto tal é a base de toda vida pessoal e social. Ora o princípio de solidariedade implica o acolhimento e o respeito pelo outro em sua dignidade. A economia alternativa que corresponde, então, à constituição da vida humana é a da colaboração solidária e da autogestão com o objetivo de satisfazer as necessidades das pessoas e das comunidades.


* Doutor em Filosofia e professor da UFC. Presidente da Adital

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O novo deus - Flávio Tavares - Jornalista e escritor, Zero Hora, 21/02/10

A rotina nos anestesia e, na repetição, cria a ilusão de estável normalidade. Podemos estar diante do precipício mas, acostumados a vê-lo a cada minuto, não temos ideia da queda que nos espera se dermos um passo à frente. Nada é mais perigoso do que os hábitos que se apoderam de nós como oculto invasor noturno, que não percebemos nem notamos que nos assalta e nos domina.

Nada mais benéfico, portanto, que nos puxem pelo braço e nos mostrem o abismo, como fez agora a Campanha da Fraternidade, ao chamar a atenção para a devastação ética e comportamental criada pela ambição exibicionista da sociedade de consumo. Ou do consumismo como ideologia e norma de vida.

Originalmente promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) da Igreja Católica, juntaram-se à campanha as igrejas Evangélica de Confissão Luterana, Anglicana, Presbiteriana, Cristã Reformada e Ortodoxa de Antioquia, no arco que integra o Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil. O lema neste ano é um versículo do Evangelho de Mateus, ao difundir o pensamento de Cristo: “Não podemos servir a Deus e ao dinheiro”. O bispo de Rio Grande, dom José Mário Stroher, presidente regional da CNBB, resumiu a reflexão crítica da campanha: “Tudo entre nós está a serviço do consumo; dos bens às drogas tudo virou instrumento do dinheiro para concentrar ainda mais dinheiro, transformando o ser humano num predador”.

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O meio ambiente é a primeira vítima desse frenesi consumista, em que só o que multiplique cifrões é visto como normalidade. Rios degradados pela poluição industrial, ar infectado pelos gases, alimentos contaminados por agrotóxicos, nada dessa pestilência importa se gerar lucro!

Está em jogo, porém, a obra fundamental da Criação – a vida. Ou a natureza que permitiu o desenvolvimento da vida. Assim, nada mais natural que as igrejas critiquem um estilo de vida que cultiva o hedonismo e, em consequência, desemboca na extinção da vida em si.

No fundo, as igrejas cristãs fazem uma crítica profunda do modelo de capitalismo predatório e consumista que entrou pelo século 21 com ímpeto especulativo sem limites (a crise financeira de 2008, que ainda não terminou, mostrou o que é a especulação). Não se trata de ação oportunista para ocupar o espaço que a medíocre política partidária abandonou. Há muito a Igreja desconfia do capitalismo e o vê com olhos críticos: na Idade Média, a usura era um pecado terrível e os usureiros da época eram os banqueiros de hoje.

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No início do século 20, um sacerdote alemão percorreu o interior do Rio Grande (em lombo de mula) fundando cooperativas de crédito entre os pequenos agricultores. As “Volkskassen” orgulhavam-se de não terem lucro, ou de lucro ínfimo, indispensável apenas a reinvestimentos de socorro à lavoura. Algumas dessas “caixas populares” cresceram (como o Banco Agrícola e Mercantil, fundado em Santa Cruz) e foram abocanhadas por grandes bancos. A concepção do crédito mudou, então, e passou a enriquecer os bancos.

O escândalo brutal, porém, é o do consumismo em si, que torna obsoleto amanhã o computador ou o telefone celular comprado hoje. E, na orgia desenfreada, o menino pobre de rua mata para roubar o tênis “de marca” de outro guri como ele. Nesse turbilhão, uns devoram aos outros. Os marginais nos tiroteiam no semáforo ou em nossas casas. Os corruptos da política já roubam diretamente, filmados pela TV.

Venha de onde vier, todo dinheiro vai para o altar do novo deus. O deus da nova religião fanática, o consumismo.

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Exame de consciência, por que não? -  Pedro Gilberto Gomes - Padre jesuíta, professor e pesquisador da Unisinos, Zero Hora, 24/02/10.

Os textos da imprensa sobre a Campanha da Fraternidade 2010, da CNBB e do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, trazem, em sua maioria, a afirmação de que ela poderia ter saído do Fórum Social Mundial, de manifesto do MST, programa de um partido socialista ou congresso estudantil. Também dizem que as Igrejas, em geral, e a Católica, em particular, movem-se fora da realidade, numa utopia. Desse modo, não podem nem devem criticar a sociedade capitalista e globalizada.

Mas, afinal, uma das funções das Igrejas não é chamar atenção para distorções de nosso mundo? Isto é, ao se criticar as opções do modelo que valoriza o ter, o prazer e o poder, não se pretende simplesmente substituí-lo por outro, mas lançar luzes sobre as injustiças estabelecidas nas relações, quando o ser humano não é colocado no centro das preocupações e das ações das pessoas e das instituições. É missão das Igrejas não canonizar o modo como a sociedade se estrutura, mas lembrar valores perenes e fundamentais que não podem se subordinar aos ditames do capital, nem à impessoalidade do mercado. Toda e qualquer relação com o transcendente se expressa no modo como organizamos a sociedade. O amor acontece no aqui e no agora social.

O que se critica não é a necessidade de lucro, pois o imperativo de se alcançar um resultado operacional positivo é condição para a sobrevivência das organizações, mas que ele seja alcançado à custa do empobrecimento de muitos. O recurso à palavra de Jesus – “não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lucas 16,13) – não critica simplesmente o dinheiro, mas condena sua transformação em Deus da vida humana. Nesse sentido, não se pode servir a dois deuses.

Por outro lado, quando se diz que um documento que faz crítica social está relacionado com partidos socialistas, movimentos sociais radicais ou de esquerda, será que não estamos nos protegendo para não nos deixar tocar nem questionar por suas posições e críticas?

O que causa espécie é que os parcos escritos em defesa da Campanha da Fraternidade sejam de autoria de membros da hierarquia de suas Igrejas (este autor também). O desânimo surge ao ver que nenhum fiel tenha defendido o que é proposto a partir dos princípios milenares de sua fé. As Igrejas devem, diante de Deus, chamar seus fiéis à vivência da justiça, do amor e da fraternidade. Caso contrário, Deus pedirá delas contas sobre a conivência e omissão que tiveram na injustiça contra os pobres e os pequenos.

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