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Campanha da Fraternidade 2011
O compromisso de todos com a vida no planeta – CF 2011

O compromisso de todos com a vida no planeta – CF 2011

A força evangelizadora da Campanha da Fraternidade na Quaresma

Com data de 26 de dezembro de 1963, o então Bispo-Auxiliar do Rio de Janeiro e Secretário-Geral da CNBB, Dom Helder Câmara, enviou aos Bispos do Brasil o projeto da Campanha da Fraternidade, que havia sido aprovado por eles durante os trabalhos do Concílio Ecumênico Vaticano II, em Roma. Era uma Campanha para a Quaresma do ano seguinte. Ampliava-se assim para todo o Brasil uma iniciativa já realizada em 1962 pela Arquidiocese de Natal e outras três Dioceses do Rio Grande do Norte e, em 1963, por 16 dioceses do Nordeste.

Desta forma, desencadeou-se uma atividade ampla de evangelização num período determinado, a Quaresma, com o objetivo de promover a fraternidade em compromissos concretos em vista da transformação da sociedade a partir de uma realidade específica. No espírito da pregação dos profetas, retomada por Cristo, insiste na verdadeira penitência que agrada a Deus, como meio de evangelização da quaresma: repartir o pão com quem tem fome, dar de vestir ao maltrapilho, libertar os oprimidos, promover a todos.

 Tornou-se um patrimônio da Igreja Católica e também das outras Igrejas Cristãs históricas, pois ela teve já três edições ecumênicas. Firmou-se igualmente como um benefício para toda a sociedade brasileira.

Campanha da Fraternidade, força profética na vida eclesial e social

A CF nasceu no contexto renovador do Concílio Vaticano II. Vem tendo marca profética para a vida da própria Igreja e para toda a sociedade. Num primeiro momento, mais breve, acentuou a renovação interna da Igreja (Lembre-se, você também é Igreja; Faça de sua Paróquia uma comunidade de fé, culto e amor). Num segundo, insistiu na renovação do cristão (somos todos responsáveis uns pelos outros, somos todos iguais – somos todos irmãos, crer com as mãos, ser cristão é participar, descubra a felicidade de servir ...). Por fim, ela destaca a realidade social do povo, denunciando o pecado social e promovendo a justiça (... repartir o pão, caminhar juntos, trabalho e justiça para todos, preserve o que é de todos, saúde para todos, fraternidade sim – violência não, pão para quem tem fome, mulher e homem – imagem de Deus, solidários na dignidade do trabalho, sem trabalho por quê? ...).

Para quem desejasse temas mais “religiosos”, “eclesiais”, é bom lembrar que, abordando aspectos sociais, a CF impele a Igreja a ser mais autêntica, fiel ao Evangelho, samaritana, libertária (que busca a libertação de todas as pessoas e da pessoa toda das múltiplas formas de escravidão). Quanto mais fiel ao Evangelho, mais força profética a Igreja terá.

A CF 2011 – a vida no planeta

Em sua dimensão profética, a CF deste ano aborda a questão do aquecimento global e as mudanças climáticas. Seu tema é: Fraternidade e a Vida no planeta. Seu lema: “A criação geme em dores de parto” (Rm 8,22).

O objetivo geral da CF 2011 é: contribuir para a conscientização das comunidades cristãs e pessoas de boa vontade sobre a gravidade do aquecimento global e das mudanças climáticas e motivá-las a participar de debates e ações que visam enfrentar o problema e preservar as condições de vida no planeta.

Para se alcançar este objetivo amplo, são propostos os seguintes objetivos específicos:

- viabilizar meios para a formação da consciência ambiental em relação ao problema do aquecimento global e identificar responsabilidades e implicações éticas;

- promover a discussão sobre os problemas  ambientais com foco no aquecimento global, mostrando sua gravidade e urgência e articulando a realidade local e regional com o contexto nacional e planetário;

- trocar experiências e propor caminhos para superação destes problemas.

As estratégias para tais objetivos são:

- mobilizar pessoas, comunidades, Igrejas, religiões e sociedade para assumirem o protagonismo na busca de alternativas para superar os problemas socioambientais decorrentes do aquecimento global;

- propor atitudes, comportamentos e práticas fundamentados em valores que tenham a vida como referência no relacionamento com o meio ambiente;

- denunciar situações e propor responsabilidades em relação aos problemas decorrentes do aquecimento global.

A Campanha da Fraternidade e a questão ambiental

A questão ambiental já esteve presente diversas vezes na CF. Já a de 1979 tratou do assunto, com o tema: Por um mundo mais humano e o lema: Preserve o que é de todos. Em seu texto base encontramos: “Entre os grandes e urgentes desafios da humanidade atual está o da defesa e preservação do meio-ambiente, de que se ocupa a chamada Ecologia.” Em outros anos, a questão apareceu mais ou menos explícita. Em 1984: Fraternidade e vida; 1986: Fraternidade e terra, Terra de Deus – Terra de irmãos; 2000: Dignidade humana e paz – dizia que é tarefa de todos “cultivar e guardar este planeta, terra de todos, criatura de Deus... somos todos responsáveis pela integridade da criação” (Texto Base - TB 218); 2002: Fraternidade e povos indígenas, por uma terra sem males; 2004: Fraternidade e água, fonte de vida; 2007: Fraternidade e Amazônia, vida e missão neste chão; 2008: Fraternidade e defesa da vida. Mencionou as ameaças à vida e ao meio ambiente, a questão ecológica e o valor da vida humana (TB 136-141).

Para encaminhar a reflexão sobre a temática da CF 2011

- O que está acontecendo em relação ao meio ambiente?

- O que causa isso? O que provoca o aquecimento global e as mudanças climáticas?

- De quem é a responsabilidade? De que forma e em que medida?

- O que a Igreja realizou ou está realizando em relação ao meio ambiente?

- Na sociedade civil organizada, quem atua e o que faz em defesa do meio ambiente?

Num exercício de imaginação, o que o planeta terra e as criaturas diriam a nós, seres humanos?

O Planeta terra, casa de todos, está com febre.

Nosso corpo tem alguns sinais vitais com índice médio de funcionamento: pressão arterial, pulsação, batimentos cardíacos, temperatura... Quando a temperatura passa dos 36,5º C, começamos a sentir mal-estar. Quanto mais ela subir, pior a sensação. Precisamos encontrar a causa e aplicar o remédio para que volte ao normal.

Segundo estudos científicos, de 1750 a 2006, a temperatura da terra aumentou 0,7ºC. E as previsões são de que continuará aumentando. Até 2050, a temperatura pode aumentar 2,4ºC, mesmo com mudanças no padrão de produção e consumo. Sem medidas radicais, pode aumentar até 4ºC. Com este aquecimento, as geleiras derretem e aumentam o nível dos mares, causando a migração de muita gente. Diversos fenômenos climáticos se intensificam: tempestades, furacões, enchentes e secas mais amplas e prolongadas.

Há divergências quanto às causas deste fenômeno. Para alguns, é consequência da evolução do planeta. Para outros, da emissão de gases com efeito estufa, intensificada a partir da industrialização, de 1750 em diante, e da retirada da natureza de seres que compensam ou absorvem estes gases naturalmente. As florestas e os oceanos, por exemplo, trocam gás carbônico por oxigênio na atmosfera. Três são os gases de maior efeito estufa: dióxido de carbono (CO2), proveniente das queimadas de combustíveis fósseis e das queimadas de árvores, vegetação...; é responsável por mais ou menos 64% do efeito estufa; metano (CH4), produzido por campos de arroz, pelo gado e pelas lixeiras; contribui com cerca de 19% do efeito estufa; óxido nitroso (NO2), advindo principalmente da agricultura, pela fertilização do solo e por defensivos agrícolas. Estes e outros gases guardam calor do sol na atmosfera. Isso provoca o aumento da temperatura da terra e as consequentes mudanças climáticas.

Não se pode, pois, negar que não haja muitas mudanças climáticas e que a ação do ser humano não tenha provocado muitas alterações profundas na natureza.

O modelo capitalista de desenvolvimento, movido pelo lucro, alimentado pelo consumo compulsivo, acima de tudo de produtos supérfluos, sem levar em conta as consequências nefastas para a natureza e para os mais pobres, gera um impasse sempre mais grave. Ou se continua a exploração predatória da natureza e se arca com as consequências, colocando em risco a vida, ou se muda radicalmente o modo de vida.

Não é que a terra não possa fornecer o necessário para a vida da humanidade. Atualmente, há farta produção de alimentos, mas um bilhão de pessoas passa fome. É que muito alimento está estocado e foi transformado em objeto de negócios em bolsas de valores, como as ações de uma empresa. A humanidade consome um quarto a mais do que a terra realmente pode disponibilizar. Se a população do planeta aumentou 4 vezes no século passado, de 1950 a 2000, a produção de bens aumentou dez vezes.

O desenvolvimento deve ser sustentável. A sustentabilidade inclui três aspectos: economia, meio ambiente e bem estar social. Não pode haver apenas crescimento econômico. Deve haver preservação da fonte, a terra e seus bens. Deve haver acesso de todos aos frutos do crescimento econômico, superando as gritantes desigualdades sociais. Diz um especialista que a destruição da biodiversidade tem as mesmas causas que a degradação social.

Nesta visão economicista, não se leva em conta as consequências da geração de energia, sempre mais necessária para o ritmo de produção de bens, do desmatamento de florestas, especialmente a amazônica, da utilização da água. Neste espírito, o cuidado com o meio ambiente é visto como obstáculo ao desenvolvimento, que acaba sendo apropriação indevida de bens por parte de alguns e não progresso de todos. E mesmo que fosse para todos, não pode ser conquistado a qualquer preço. A terra não pode ser vista apenas como fornecedora de bens. Ela também tem suas necessidades.

É bem verdade que a comunidade mundial tem se preocupado com o meio ambiente. Órgãos oficiais, entidades da sociedade civil, Igrejas desenvolvem iniciativas de educação, intervenção e contestação para a preservação da natureza. A Organização das Nações Unidas (ONU) promoveu diversas atividades a partir de 1970.

- 1972, Conferência de Estocolmo, primeiro encontro internacional sobre meio ambiente. Aponta necessidade de equacionar eficiência econômica, equidade social e equilíbrio ecológico.

- 1987, Protocolo de Montreal, entrando em vigor a partir 1º de janeiro de 1989, compromete os países signatários a substituir as substâncias que reagem com o ozônio na parte superior da estratosfera.

- 1992, Rio de Janeiro, Eco 92. Buscou conciliar o desenvolvimento socioeconômico com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra. Cunhou o conceito de desenvolvimento sustentável e contribuiu para a conscientização de que os danos ao meio ambiente são majoritariamente de responsabilidade dos países desenvolvidos.

- 1997, Kyoto, Japão, encontro que produziu o Protocolo com o nome da mesma cidade. Estabelecia a redução de gases com efeito estufa. Precisava a adesão mínima de 55 países, incluídos os que juntos produziam 55% do gás carbônico lançado na atmosfera. Mas, Estados Unidos, Canadá e Austrália não assinaram.

- 2002, África do Sul, Rio 10+. Principais temas: erradicação da pobreza, mudança dos padrões de produção, consumo e manejos de recursos naturais e desenvolvimento sustentável.

- De 7 a 18 de dezembro de 2009, em Copenhague, foi realizada nova Conferência da ONU sobre as mudanças climáticas. Considerada pela imprensa mundial como polêmica, não atingiu planos desejados.

- De 29 de novembro a 10 de dezembro de 2010, em Cancún, México, 16ª Conferência das Partes da Convenção sobre Mudança Climática, a COP-16, com a participação de 193 países. Segundo informações ainda não bem precisas, esta Conferência aprovou um “pacote de decisões”, designado “Acordos de Cancún”. A Bolívia não o subscreveu por reivindicar medidas mais amplas. Para membros de movimentos e organizações populares, o sentimento foi de decepção. O texto reconhece a necessidade de cortes profundos nas emissões de gases causadores de efeito estufa para se evitar que a temperatura aumente mais do que 2 graus acima da época pré-industrial. Confirma o compromisso de Copenhague de que os países desenvolvidos financiem ações de redução de emissões e adaptação às mudanças climáticas nos países em desenvolvimento, no valor de 30 bilhões de dólares até 2010 e um fundo climático de 100 bilhões de dólares até 2020. Mas o texto não tem efeito jurídico vinculante, como é o Protocolo de Kyoto, que não foi renovado ou prorrogado pela oposição de Japão, Canadá e Rússia, já que não se aplica a China e Estados Unidos. Os próximos ajustes serão em Durban, África do Sul, no final de 2011. E para 2012, as Nações Unidas irão realizar, no Rio de Janeiro, outra conferência sobre Mudança Climática. O evento, intitulado Rio + 20, irá comemorar os 20 anos da Eco-92, além de avaliar os progressos alcançados desde 1992 na proteção do meio ambiente.

A falta de consenso nestes eventos revela a dificuldade política de um acordo também global. O impasse entre nações ricas e desenvolvidas e as em desenvolvimento e subdesenvolvidas tem como vítima o planeta todo, pois como dizia Ghandi, “o mundo tem recursos suficientes para atender às necessidades de todos, mas não à ambição de todos”.

A preservação da natureza

– indicações da sabedoria de povos,  da bíblia e da teologia

Quem está com febre não consegue escondê-la, pois seus efeitos são percebidos pelos outros. Não podemos negar as consequências do aquecimento global, a febre da terra. E como afetam a todos, ninguém pode deixar de fazer a sua parte para reverter a situação.

Muitos grupos humanos, especialmente indígenas, muitas pessoas, a bíblia, a teologia e a ciência em seus diversos ramos oferecem inúmeras contribuições para a urgente e irrenunciável mudança de hábitos para cuidar da terra.

Em 1854, quando o processo capitalista de industrialização não estava tão avançado, o cacique Seatle, do povo Sioux advertiu o presidente dos Estados Unidos a respeito da devastação que o “homem branco” estava realizando. Em sua sabedoria, está a de tantos outros povos.

No início da Conferência de Cáncun, Gabino Apata Mamani, do Conselho Nacional de Ayllus e Markas do Qullasuyu, declarou: A Mãe Terra está morrendo devido ao saque dos capitalistas; as geleiras do Illimani estão desaparecendo e em pleno verão há um frio de inverno. É a mudança climática. Eles, os capitalistas poluem tudo, por isso os animais morrem, há muita seca.

São Francisco de Assis, falecido em 1226, com 44 anos, em seu Cântico das Criaturas, testemunha antecipadamente aquilo que hoje chamamos consciência ecológica. Para ele, a terra é mãe e irmã. Todos os seres são irmãos. Para ele e para muitos outros cristãos, a terra deve ser amada e cuidada com o carinho que o próprio Deus tem por ela, como podemos encontrar na Bíblia. Poderíamos dizer que só um desnaturado, desequilibrado e enlouquecido não ama a mãe e os irmãos.

Quando a Bíblia foi escrita, não se percebia explicitamente a questão da preservação ambiental. Mas nos traz os ensinamentos de Deus para cuidarmos bem da vida. Ensinamentos que são sistematizados pela Teologia, especialmente a Teologia da Criação.

A mensagem bíblica a respeito do universo é que Deus criou tudo o que existe e o confiou ao ser humano para ser seu jardineiro, o cuidador da natureza, não seu dominador e destruidor. Assim, ele é o responsável pela vida, pelo bem estar e integridade de tudo e de todos os que lhe foram confiados.

Mas o ser humano não observou a advertência de Deus de “não comer da árvore do bem e do mal” (Gn 3,1-24). Na sua presunção de assumir prerrogativas divinas, homens e mulheres querem dominar o mundo, subjugar os outros seres, em verdadeira guerra social e ecológica que leva inevitavelmente à morte. Homens e mulheres podem usufruir dos bens do jardim, mantendo, porém, a ordem divina que aponta para a justiça e a solidariedade em vista da coletividade. “Comer da árvore não recomendada significa que as pessoas se fazem dominadoras, instalam um sistema destruidor, e na condição de senhores e senhoras do bem e do mal, acabam destruindo tudo, inclusive a si mesmos, instalando um conflito no lugar de uma vida solidária” (TB 118).

A mensagem bíblica traz também o ensinamento sobre a necessidade do descanso semanal das pessoas, mas igualmente da terra e dos animais de uso doméstico. O ano sabático e o ano jubilar visam a um retorno periódico à condição inicial da vida. O abandono deste princípio, resulta na “estruturação de um mundo sem celebração, de um tempo visto somente pela ótica da produção e do progresso, que gerou desequilíbrios e injustiças" (TB 129).

Na bíblia encontramos ainda indicações precisas a respeito do cuidado da vida e das fontes vitais (Dt 22,6-7; 20,19-20; 23,13-15), bem como a respeito do uso dos bens e do cultivo da terra. No deserto, o maná devia ser recolhido na porção necessária para cada dia. O que fosse a mais, apodreceria. Quando o povo chegou à terra prometida, ela foi repartida de modo a evitar a concentração de bens. Não podia ser vendida em definitivo, porque é de Deus (Nm 26,53; Lv 25,23).

Jesus Cristo, na conhecida contestação às três tentações (Mt 4,1-10), ensina que a natureza não pode ser transformada para servir unicamente ao nosso consumo e ao lucro; que Deus não pode ser transformado em mágico protetor a garantir a prosperidade de seus devotos; que o senhorio humano em relação à natureza tem um limite. Quando não observado, cria-se um processo de degradação da vida (Cf TB 140-142).

As Igrejas cristãs, à luz das indicações bíblicas, desenvolveram patrimônio teológico sobre a criação e conjunto de ensinamento social a respeito do uso dos bens e da organização da sociedade.

Pela Igreja Católica, entre outros, o Documento do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no mundo de hoje diz: “Deus destinou a terra, com tudo o que ela contém, para o uso de todos os homens e povos, de tal modo que os bens criados devem bastar a todos, com equidade sob a regra da justiça, inseparável da caridade” (GS 70). Documentos dos Papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI chamam atenção para o limite dos recursos disponíveis, das urgentes providências a serem tomadas no campo da ecologia, que deve ter também a conotação social e humana. O Documento da Aparecida diz que as questões ecológicas são um dos novos areópagos da evangelização (DA 491).

A Assembleia Ecumênica Mundial (Coreia, 05 a 12/3/1990), afirmou que “cada vida é sagrada porque a criação é de Deus e a bondade de Deus a permeia completamente. Atualmente cada forma de vida no mundo está em perigo, porque a humanidade não foi capaz de amar a vida da terra; em particular, os ricos e os poderosos a roubaram como se essa tivesse sido criada para fins egoístas. A amplitude da devastação pode ser irreversível e, portanto, nos impele a agir com urgência” (TB 153).

Mutirão em favor do planeta e da vida no planeta

Para preservar o meio ambiente, que iniciativas deveríamos desenvolver de forma pessoal, familiar e comunitária, em nível local, regional e outros?

Quando alguém fala que está com gripe, dor de garganta, com febre, as pessoas lhe indicam diversas receitas. Diante do planeta febril, precisamos exercitar nossa criatividade para que ele volte a ter saúde plena. Cada um é responsável pela sua febre e é também parte do problema.

Algumas indicações:

- Resgatar o sentido profético do domingo. O preceito não se restringe a não trabalhar para ir à igreja. Os textos bíblicos sobre o sábado, dia do Senhor, indicam uma estruturação do tempo em favor da vida. Um dia de descanso, para as pessoas, para os animais domésticos, para a terra, numa semana, num determinado período (de 7 em 7 anos, a cada 7 semanas de anos) é indispensável para o ritmo da vida e para o ser humano reconhecer Deus como centro da criação.

- Descobrir o próprio consumo ecológico, para assumir formas de vida menos predatórias. É importante conhecer a própria “pegada ecológica” (o termo designa espécie de cálculo entre o que uma nação tem para extrair da natureza e gastar, sem comprometer sua sustentabilidade).

- Iniciativas simples para diminuir o gás carbônico na atmosfera, propostas pela Campanha 10:10 Global, na qual se integra o Conselho Mundial de Igrejas: evitar sacolas plásticas; consumir produtos locais (os que vêm de longe chegam por transporte que consome petróleo); diminuir temperaturas de geladeiras, ar condicionado, estufas...; usar melhor eletrodomésticos; utilizar painéis solares; racionalizar uso da água; fazer coleta seletiva de lixo; selecionar alimentos que exigem menos comprometimento ecológico...

- Reivindicar melhorias urbanas que contribuam para o bem estar da população, saúde e cuidado com o meio ambiente (saneamento básico, transporte coletivo com energia limpa, parques de lazer...).

- Ações conjuntas em relação à questão energética, do desmatamento, do agronegócio.

- Propugnar políticas públicas de prevenção e de superação de situações de risco (construções em encostas, em áreas de fácil alagamento).

- Fortalecer a consciência de que toda a criação faz parte da obra criadora e redentora de Deus. A vida é dádiva e como tal pode ser vivida, em gratuidade, em confiança na presença e no amor gratuito de Deus. O cuidado com o meio ambiente pode e deve ser hoje uma resposta ao amor redentor de Deus. Com o Criador, podemos e devemos ser cuidadores, criadores e mantenedores, ajudando a salvaguardar o direito e a dignidade de vida das gerações futuras. A incumbência divina de cuidar da natureza exige das pessoas perceberem-se integrantes do todo da criação com a tarefa de zelar para que a mesma se mantenha, para além do tempo presente, em suas próprias bases ecossistêmicas (Cf TB 215-219).

Erexim, 12 de dezembro de 2010, dia Na. Sra. de Guadalupe. - Pe. Antonio Valentini Neto, pároco da Catedral S. José.

 

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