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Campanha da Fraternidade 2011
Textos diversos sobre a CF-2011
CF 2011: Creio em Deus, Pai Criador - Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo A Campanha da Fraternidade de 2011 (CF-2011) propõe uma questão de evidente atualidade: fraternidade e a vida no nosso Planeta. Nem é preciso argumentar muito para justificar a escolha desse tema pela CNBB: Já faz tempo que estudiosos estão alertando para o fenômeno do aquecimento global e suas consequências para o clima e para o equilíbrio ecológico. As Conferências mundiais sobre o clima, que congregam as maiores autoridades científicas da área, deixam sempre mais evidente que o sistema produtivo da economia moderna e contemporânea desencadeia intervenções inadequadas do homem na natureza e se constitui numa ameaça real para o equilíbrio ecológico e até mesmo para o futuro da vida na terra. Em contraste com tais constatações, nas mesmas movimentadas Conferências sobre o clima, as principais autoridades políticas e econômicas do Planeta não conseguem chegar a um acordo sobre as medidas a serem adotadas para sanar o problema e prevenir os riscos. È difícil redimensionar o desenvolvimento econômico, quando a receita é renunciar a certo padrão de consumo dos recursos naturais, que equivale à depredação e depauperamento da natureza. Exigimos da natureza mais do que ela pode oferecer, sem comprometer a sua sustentabilidade. A CF-2011 convida a encarar seriamente a responsabilidade humana em relação ao futuro da vida no planeta Terra, o “ninho da vida” no universo, a casa comum da grande e diversificada família humana. O Texto Base, que apresenta a proposta da CF, traz argumentos e reflexões sobre o fenômeno do aquecimento global e os motivos que deveriam levar todos a pensar sobre o que é possível fazer e o que não se deveria fazer, para evitar a deterioração do ambiente da vida na terra. Argumentos bíblicos e teológicos deveriam motivar os cristãos e todos os crentes em Deus a uma verdadeira conversão nos modos de viver e de se relacionar com a natureza, quando ficam comprometidas a qualidade da vida e a fraternidade na família humana. Todos são convidados a se envolverem na CF-2011. Destaco dois motivos de fundo religioso, que deveriam ser levados em conta por todas as pessoas de fé no tocante à questão ecológica. Primeiramente, tratar bem a natureza e cuidar do pedaço do Planeta que ocupamos está implicado na nossa fé no Deus Criador. Professamos a fé no Deus, Criador do céu e da terra, não importa como, ou quando isso aconteceu. A ciência pode continuar a pesquisar sobre a origem do universo e da vida na terra e isso não contradiz a nossa fé no Deus Criador. O certo é que não fomos nós que demos origem a toda essa beleza e grandiosidade. Dizer que tudo isso surgiu por si mesmo é um grande absurdo. Mas também aprendemos da nossa fé que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, confiando-lhe o cuidado do “jardim da vida”. Embora pequeninos entre as criaturas do grande universo, somos importantes e Deus nos trata com predileção especial. O poeta do Salmo tem consciência disso, quando exclama, admirando o céu numa noite estrelada: “Que é o homem, Senhor, para que dele te ocupes?! No entanto, Tu o fizeste pouco menor que um deus... Tu o colocaste à frente da obra de tuas mãos!” (cf Sl 8). Sim, Deus colocou o mundo à disposição do homem; não para que acabe com ele, e sim, para que dele viva e usufrua, mas também para que zele por ele, qual bom administrador. Cuidar bem da natureza é sinal de fé e de gratidão para com o Deus Criador. Avançar sobre a natureza com a vontade de possuir e dominar, é cair novamente na tentação de “ser deuses”, como Adão e Eva no paraíso (cf Gn 3). Quando o homem resolve assumir o lugar de Deus, desprezando seu desígnio, a desordem e o caos entram no mundo, com seus frutos de injustiça, violência e morte. O outro motivo, relacionado com o primeiro, é de fundo ético e moral: Cuidar bem da Terra, nossa casa comum, é questão de responsabilidade e solidariedade. Os bens da criação foram colocados por Deus à disposição de todas as suas criaturas; descuidar da natureza, ou estragá-la, é falta de respeito e de justiça para com o próximo e para com as futuras gerações. Não somos os únicos a ocupar esta casa, nem seremos os últimos; e é moralmente correto pensar nos outros, quando nos relacionamos com a natureza. Não ficará bem deixar atrás de nós um paraíso depredado, o mundo cheio de lixo, as terras desertificadas, as águas contaminadas, o ar irrespirável, o equilíbrio ecológico comprometido... A CF-2011 é um convite a refletir, para formar uma consciência comum sobre nossa responsabilidade e para tomar decisões eficazes sobre os cuidados que a Terra merece. É nossa casa comum. E ainda será a casa dos que viverão depois de nós. . Questão ecológica, questão moral - Cardeal Odilo Pedro Scherer, Arcebispo de São Paulo Sempre mais nos damos conta de quanto o nosso planeta é precioso e único no universo. Sem excluir que possa haver vida em algum outro lugar na imensidão do cosmo, o certo é que, com todo o seu potencial para esquadrinhar o espaço sideral, os estudiosos ainda não conseguiram detectar nada que se pareça com a vida no nosso Planeta Azul; nem mesmo com suas formas mais elementares. A Terra é a casa da vida, o espaço privilegiado que abriga uma diversidade enorme de seres vivos. Ela é o condomínio da família humana, com suas raças, povos e culturas diferentes; lentamente, e com certa relutância, vamos aprendendo que ninguém é dono absoluto de pedaço algum desse globo e que todos fazem parte de uma imensa comunidade humana, que tem tanto em comum. Todos são responsáveis por todos nesta comunidade e o bem de cada um só será completo, se também for o bem de todos os demais; da mesma forma, o mal de um, é o mal de todos. Comum deve ser também o zelo para que este condomínio não seja descuidado e tornado inabitável com o passar do tempo. Está em jogo o bem de todos. Embora a questão ambiental entre, aos poucos, nas preocupações diárias, ainda estamos longe de ter alcançado uma consciência coletiva que seja capaz de frear os estragos causados pela intervenção humana na natureza; no âmbito dos comportamentos individuais, há muito que fazer para que o zelo pelo ambiente se torne habitual e cultural; no campo das decisões políticas, em todos os níveis, está difícil chegar a consensos que levem plenamente a sério a questão ambiental; de fato, procura-se salvar, geralmente, mais os interesses imediatos e particulares do que a sustentabilidade, a médio e longo prazo, desta casa comum que nos abriga. A Igreja católica, no Brasil, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), já pela 3ª. vez, realiza a Campanha da Fraternidade sobre a ecologia. Neste ano, o assunto é abordado de maneira ampla, com o tema “fraternidade e vida no Planeta”. Chama-se a atenção para o fenômeno de aquecimento global, as causas que o provocam e as consequências que poderá trazer, ou já vai tendo; mostra-se, sobretudo, que o comprometimento das condições ambientais para o futuro da vida na Terra não tem, geralmente, sua causa em fenômenos espontâneos da dinâmica do universo, mas em ações do homem, que interferem no equilíbrio ecológico. Tais intervenções foram aceleradas, sobretudo, pelo sistema industrial e os modelos econômicos adotados a partir dos últimos 3 séculos. A comunidade humana está cuidando mal da natureza, dela exigindo mais que ela pode dar, destruindo a própria casa, pouco a pouco. Vamos deixar correr, fazendo de conta que o problema não existe, ou que é só dos outros? Manter o mesmo ritmo de consumo e de interferência na natureza, sem nos importar com as consequências? Num condomínio, quando aparecem problemas e riscos, é normal que todos os condôminos se reúnam e decidam sobre o quê fazer, pois o bem de todos está relacionado intimamente com o bem do próprio condomínio. Não deveria ser diferente com nosso Planeta: descuidar da Terra faz mal a todos; cuidar bem da Terra é bom para todos. O papa João Paulo II advertiu que a questão ecológica representa um problema moral, cujas implicações são, basicamente, duas: a solidariedade para com os pobres e o direito das futuras gerações. De fato, os maiores prejudicados com a deterioração ambiental são, e o serão ainda mais no futuro, os pobres do mundo, os mais fracos e desprotegidos da família humana. E não é moralmente honesto viver e agir apenas pensando em si, sem levar em conta o bem dos membros mais frágeis da família. Por outro lado, esta é uma questão de respeito e de justiça para com as gerações futuras, que habitarão este Planeta depois de nós. Em que estado deixaremos este condomínio para nossos pósteros? A questão ecológica demanda com urgência uma nova consciência solidária. O zelo pelo Planeta é um desafio moral, que a humanidade precisa enfrentar com políticas adequadas de convivência e de interação responsável com a natureza. Recentemente, na encíclica Caritas in Veritate (32), o papa Bento XVI apontou para a necessidade de uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e do sentido da economia e seus objetivos, para corrigir disfunções e deturpações, que têm implicação direta na deterioração do ambiente da vida na Terra. Por outro lado, não menos necessária é uma renovação cultural, para redescobrir os valores que constituem o alicerce firme sobre o qual se pode construir o futuro melhor para todos. Para os cristãos e para os crentes em Deus, de modo geral, há um motivo a mais para tratar a natureza com profundo respeito e responsabilidade: ela é dádiva do Criador para todas as suas criaturas, não, certamente, para que a depredem e destruam, mas para que dela vivam e louvem a Deus. De modo especial, o ser humano foi feito “zelador do jardim” e colaborador inteligente e responsável no cuidado pela obra de Deus. Tratar mal a dádiva é desprezar e ofender o doador; e a vontade de potência absoluta do homem sobre a natureza é irresponsável, pois introduz a desordem no mundo; as consequências só podem ser desastrosas, como aquelas que já constatamos e lamentamos. A Campanha da Fraternidade deste ano é um convite à reflexão e à ação para manter acolhedora e vivível para todos nossa preciosa casa no universo. Também para aqueles que a ocuparão depois de nós. É questão moral; questão de fraternidade. . A vida no planeta - Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte O carnaval vai começar. Em muitos lugares, já começou e até, indevidamente, é prolongado e ultrapassa os limites do calendário. Muitos, no entanto, iluminados por outros princípios e razões, vivem uma folia diferente. Não excluem a alegria que precisa fecundar a vida e mostrar sua graça. Priorizam a vivência do contentamento cultivado pela experiência da oração, do estudo, dos retiros espirituais, do contato com a natureza, do gosto pelo silêncio, o convívio familiar e as amizades. Entre essas escolhas, não poucos fazem a opção pelo estudo e aprofundamento do tema da Campanha da Fraternidade, promovida há mais de 40 anos pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Gesto educativo que ilumina com a fé e os valores do evangelho a realidade social, política, religiosa e cultural de todos. Neste ano, durante a quaresma, momento especial em que a Igreja Católica convida para atenciosa escuta da Palavra de Deus na oração, na prática do jejum e na comprometida caridade, o tema escolhido é “A vida no planeta”. A consideração da vida no planeta nasce da importante e interpeladora motivação que toca a fé cristã e a cidadania na sua nobreza. São muitos rostos sofredores por este mundo afora clamando solidariedade. O olhar lançado sobre a natureza é a referência fundamental para fazer brotar e recuperar sensibilidades. Conscientizar, em relação aos resultados, que as mãos humanas estão produzindo e contribuindo nas mudanças climáticas, que têm ocasionado sérios desastres na natureza e na vida de todos. É componente importante da cidadania o debate dos aspectos envolvendo o meio ambiente. As questões são, na verdade, muito complexas. Basta considerar as diferentes posições, não só entre ativistas e govern antes, como também no meio científico. Ainda que seja razoável pensar que as mudanças climáticas seguem ciclos próprios da natureza, é inquestionável que a derrubada de florestas, a poluição produzida e outros fatores advindos das ações humanas estão incidindo sobre o planeta e interferindo nas mudanças do clima. A reflexão cidadã, portanto, tem importância e grande influência no contexto. Envolve a todos, além de fomentar um processo educativo que proporcione amadurecimento e modificações radicais no tratamento dado à natureza e a tudo o que ela oferece para o bem de todo o mundo. Os meios de comunicação mostram e comprovam o descaso no tratamento dado à natureza, com resultados preocupantes e acontecimentos lastimáveis. Em perdas de vidas e em prejuízos, que nascem até mesmo de irresponsabilidades, e condutas individuais egoístas e pouco civilizadas. A CNBB, colocando no coração da Campanha da Fraternidade a espiritualida de quaresmal, apelo veemente e amoroso de Deus à conversão, tem como meta, por meio do que é feito nas dioceses e paróquias de todo o Brasil, viabilizar melhor formação da consciência ambiental. Isso, para que todos possam assumir, nas diferentes etapas da vida, suas responsabilidades próprias, com as respectivas consequências éticas. Há urgência, considerando-se o conjunto da sociedade mundial, em alcançar índices de maior conscientização sobre esse problema. Neste sentido, a Campanha da Fraternidade investirá na mobilização de pessoas, comunidades, igrejas, segmentos religiosos, enfim, em toda a sociedade, para avançar na superação de tantos problemas socioambientais, formando condutas fundamentadas nos valores do evangelho. Nesse processo de educação ambiental quer também desenvolver a profecia que está no centro dessas considerações. Suscitar posturas corajosas de denúncias, apontando responsabilidades no que diz respeito aos problemas ambientais decorrentes de equivocadas e scolhas e das atitudes de cidadãos, empresas e governos. É inquestionável que muitas atividades do ser humano incidem nas mudanças que estão vitimando o planeta. O convite à conversão é oportuno e necessário, podendo alcançar o mais recôndito do coração humano até inspirar mudança de conduta, particularmente em relação a posturas, tratamentos e consumo dos bens da natureza no nosso rico planeta Terra. Permanece o desafio de repensar o atual modelo de desenvolvimento, em razão dos comprometimentos produzidos. E também da fomentação de modos de viver e da criação de demandas que estão configurando uma cultura na contramão da vida saudável e mais autêntica. A agenda de temas pertinentes em face de mudanças significativas é ampla, inclui questões em torno da água, do tratamento de biomas, do êxodo rural, dos escândalos da miséria, da sustentabilidade como novo paradigma civilizacional. O desafio é tão grande que pode levar muitos a fechar os olhos. É preciso abrir a mente e o cora ção para o forte apelo que ressoará mais potente no tempo da quaresma, o convite de Jesus: “Convertei-vos!”. A vida no planeta - Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte O carnaval vai começar. Em muitos lugares, já começou e até, indevidamente, é prolongado e ultrapassa os limites do calendário. Muitos, no entanto, iluminados por outros princípios e razões, vivem uma folia diferente. Não excluem a alegria que precisa fecundar a vida e mostrar sua graça. Priorizam a vivência do contentamento cultivado pela experiência da oração, do estudo, dos retiros espirituais, do contato com a natureza, do gosto pelo silêncio, o convívio familiar e as amizades. Entre essas escolhas, não poucos fazem a opção pelo estudo e aprofundamento do tema da Campanha da Fraternidade, promovida há mais de 40 anos pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Gesto educativo que ilumina com a fé e os valores do evangelho a realidade social, política, religiosa e cultural de todos. Neste ano, durante a quaresma, momento especial em que a Igreja Católica convida para atenciosa escuta da Palavra de Deus na oração, na prática do jejum e na comprometida caridade, o tema escolhido é “A vida no planeta”. A consideração da vida no planeta nasce da importante e interpeladora motivação que toca a fé cristã e a cidadania na sua nobreza. São muitos rostos sofredores por este mundo afora clamando solidariedade. O olhar lançado sobre a natureza é a referência fundamental para fazer brotar e recuperar sensibilidades. Conscientizar, em relação aos resultados, que as mãos humanas estão produzindo e contribuindo nas mudanças climáticas, que têm ocasionado sérios desastres na natureza e na vida de todos. É componente importante da cidadania o debate dos aspectos envolvendo o meio ambiente. As questões são, na verdade, muito complexas. Basta considerar as diferentes posições, não só entre ativistas e govern antes, como também no meio científico. Ainda que seja razoável pensar que as mudanças climáticas seguem ciclos próprios da natureza, é inquestionável que a derrubada de florestas, a poluição produzida e outros fatores advindos das ações humanas estão incidindo sobre o planeta e interferindo nas mudanças do clima. A reflexão cidadã, portanto, tem importância e grande influência no contexto. Envolve a todos, além de fomentar um processo educativo que proporcione amadurecimento e modificações radicais no tratamento dado à natureza e a tudo o que ela oferece para o bem de todo o mundo. Os meios de comunicação mostram e comprovam o descaso no tratamento dado à natureza, com resultados preocupantes e acontecimentos lastimáveis. Em perdas de vidas e em prejuízos, que nascem até mesmo de irresponsabilidades, e condutas individuais egoístas e pouco civilizadas. A CNBB, colocando no coração da Campanha da Fraternidade a espiritualida de quaresmal, apelo veemente e amoroso de Deus à conversão, tem como meta, por meio do que é feito nas dioceses e paróquias de todo o Brasil, viabilizar melhor formação da consciência ambiental. Isso, para que todos possam assumir, nas diferentes etapas da vida, suas responsabilidades próprias, com as respectivas consequências éticas. Há urgência, considerando-se o conjunto da sociedade mundial, em alcançar índices de maior conscientização sobre esse problema. Neste sentido, a Campanha da Fraternidade investirá na mobilização de pessoas, comunidades, igrejas, segmentos religiosos, enfim, em toda a sociedade, para avançar na superação de tantos problemas socioambientais, formando condutas fundamentadas nos valores do evangelho. Nesse processo de educação ambiental quer também desenvolver a profecia que está no centro dessas considerações. Suscitar posturas corajosas de denúncias, apontando responsabilidades no que diz respeito aos problemas ambientais decorrentes de equivocadas e scolhas e das atitudes de cidadãos, empresas e governos. É inquestionável que muitas atividades do ser humano incidem nas mudanças que estão vitimando o planeta. O convite à conversão é oportuno e necessário, podendo alcançar o mais recôndito do coração humano até inspirar mudança de conduta, particularmente em relação a posturas, tratamentos e consumo dos bens da natureza no nosso rico planeta Terra. Permanece o desafio de repensar o atual modelo de desenvolvimento, em razão dos comprometimentos produzidos. E também da fomentação de modos de viver e da criação de demandas que estão configurando uma cultura na contramão da vida saudável e mais autêntica. A agenda de temas pertinentes em face de mudanças significativas é ampla, inclui questões em torno da água, do tratamento de biomas, do êxodo rural, dos escândalos da miséria, da sustentabilidade como novo paradigma civilizacional. O desafio é tão grande que pode levar muitos a fechar os olhos. É preciso abrir a mente e o cora ção para o forte apelo que ressoará mais potente no tempo da quaresma, o convite de Jesus: “Convertei-vos!”. . CF 2011: Sociedade sustentável, um novo paradigma civilizacional - Frei Gilvander Luiz Moreira, Frei Gilvander Luís Moreira, O.Carm Questão ecológica, novo areópago da evangelização - Subsídio para a Campanha da Fraternidade 2011 "Até quando vocês vão desprezar a natureza, pela ambição de acumular e consumir (e se consumir), e assim, apodrecer o Planeta Terra irresponsavelmente?” (Atualização de Ex 16,28) Introdução A 1ª parte do texto, abaixo, trata-se de uma síntese da 1ª parte do TEXTO-BASE da Campanha da Fraternidade de 2011, que trata do VER a situação de aquecimento global e das mudanças climáticas que estão 1ª Parte – VER "Fraternidade e a vida no planeta”, eis o tema da Campanha da Fraternidade de 2011, proposto pela CNBB. "A criação geme em dores de parto (Rm 8, 22)” é o lema. Por que e para quê? O Aquecimento (com escurecimento) global e mudanças climáticas já são realidade sentida por todas as pessoas e confirmada cientificamente por um batalhão de mais de 2.800 especialistas do clima, integrantes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU. As intempéries climáticas estão sistematicamente assolando as populações de forma cada vez mais intensas e em quantidades sempre crescente. A temperatura está mais elevada, temporais por toda a parte, vendavais, longas estiagens em umas regiões e excesso de chuvas em outras. Segundo a ONU, mais de 50 milhões de pessoas já são consideradas "migrantes do clima”. São populações que tiveram que fugir dos seus habitats, porque viver ali tornou impossível pela ausência de água, pelo aumento da temperatura, por desertificação, ou por que suas terras (ilhas e parte de países) já foram inundadas pelo mar. Segundo cientistas, agora, está se dando o encontro de dois movimentos cósmicos que agravam as mudanças climáticas: Primeiro, o planeta está apresentando aquecimento devido às grandes quantidades de emissões de gases de efeito estufa –GEEs-, que se intensificaram a partir do momento da industrialização de muitos países, ou como alguns preferem, é resultante de causas antrópicas (= humanas). Ou seja, o modelo econômico, imposto pelo sistema capitalista, absolutiza o crescimento econômico e está, numa progressão geométrica devastando os bens naturais – terra, água e toda a biodiversidade -, que são limitados e não infinitos. Exemplos: Se o povo de todo o mundo tivesse o nível de consumo do povo dos Estados Unidos, seria necessário recursos naturais de três globos terrestres. Se cada chinês tivesse um automóvel, a temperatura da terra aumentaria 2 graus centígrados. Segundo, a história da evolução do universo indica que de tempos em tempos acontece mudanças climáticas, como a época das glaciações, que resultou na mortandade dos dinossauros, os animais gigantes, dos quais a arqueologia demonstram a existência. A situação se torna muito mais grave, porque parecer estar entrecruzando esses dois movimentos. Assim, a ação devastadora do modelo capitalista de produção e de uma sociedade consumista está acelerando mudanças cósmicas que poderiam ser mais lentas. O clima da Terra é resultante da interação dos seres que o habitam. Assim, contribui para as mudanças climáticas que verificamos alterações, tais como: as derrubadas de florestas e do cerrado, modificações nas águas marinhas e na atmosfera, que recebeu uma carga imensa de gases de efeito estufa, entre os quais estão os raios infravermelhos que, após atingir a terra, vindo do sol, são refletidos para o espaço e repicados para a terra, sendo absolvidos pelos gases de efeito estufa, aumentando assim a temperatura. Para entender o que é efeito estufa experimente ficar muito tempo em uma sauna ou dentro de um automóvel debaixo de um sol de 40 graus. O calor absolvido, se não for refletido, acaba aquecendo gradativamente o meio circundado. A superfície da Terra não é atingida pela totalidade dos raios solares, cujos principais são: os infravermelhos e os ultravioletas. Cerca de 40% destes raios são refletidos para o espaço pelas camadas superiores da atmosfera; outros 43% atingem a superfície, que por sua vez, irradia 10% desta carga de energia solar para fora do planeta, e os 17% restantes são absorvidos pelas suas camadas inferiores. Os raios infravermelhos são absorvidos, sobretudo, pelo dióxido de carbono (CO₂) e por vapores de água, elementos importantes para a formação do efeito estufa; os ultravioletas são absorvidos pelo ozônio. O que é emitido pelos processos vitais de alguns seres é absorvido por outros. Por exemplo, o ser humano, ao expirar, emite dióxido de carbono, enquanto as plantas o absorvem; pelo processo da fotossíntese as plantas liberam oxigênio, que mantém vivo o ser humano através da respiração. Algumas atividades de nossa civilização emitem grande quantidade de dióxido de carbono. É o que ocorre na queima de combustíveis fósseis (carvão, gás e petróleo), na derrubada e queimada de florestas e nas alterações do uso do solo. As derrubadas de florestas, além de emitirem carbono na atmosfera, eliminam um fator importante de assimilação deste gás. Ao lado dos Oceanos, as florestas são detentoras de imensa capacidade de trocar o carbono por oxigênio na atmosfera. Em virtude destas atividades emissoras, as medições apontam, a partir de 1750, aumento de dióxido de carbono em torno de 40% na atmosfera, enquanto o metano (CH₄) apresentou acréscimo de 150%. Em seu quarto relatório, de 2007, o IPCC afirma que o planeta Terra está aquecendo desde 1750, tendo elevado a temperatura média em 0,74º C até 2006. Entre 1995 e 2006, o mundo teve 11 dos 12 anos mais quentes já registrados para a temperatura da superfície da Terra. A maior parte do aquecimento se deve as atividades humanas dos últimos 50 anos. Há muitos indicadores que mostram a aceleração do aquecimento. As geleiras das montanhas e as coberturas de neve estão diminuindo. As lâminas de gelo da Groelândia e da Antártida estão derretendo em alguns pontos. O nível do mar continua a subir, e a temperatura média do oceano está aumentando. As secas estão mais longas e mais intensas, e afetam áreas maiores. As chuvas estão mais pesadas e provocam graves enchentes. O relatório de 2007 indica que essas recentes mudanças são maiores do que as ocorridas no clima nos últimos 1.300 anos. A temperatura da superfície deve aumentar em cerca de A população mundial aumentou dez vezes nos últimos três séculos. No século XX, quadruplicou; hoje, ultrapassa os 6,5 bilhões de pessoas, e as estimativas indicam que pode chegar à casa dos 9 bilhões em 2050. Mesmo tendo presente que a proteína animal é desigualmente distribuída, já existe praticamente uma vaca por família e a população de gado, que é responsável por parte da produção do gás metano, saltou para 1,4 bilhão de reses. Quase a metade da população vive, hoje, em cidades ou megacidades. No século XX, a urbanização aumentou dez vezes. A produção industrial cresceu 40 vezes nesse mesmo período e a demanda energética exigiu que o setor crescesse 16 vezes. Por fim, quase 50% da superfície do planeta passaram por transformações em virtude das atividades humanas. O uso da água passou por um crescimento de nove vezes no período citado e, hoje, desigualmente distribuída, atinge cerca de A concentração de dióxido de carbono na atmosfera passou de 275 para 380ppm, segundo medição de 2006, e, segundo estimativas, a queima de combustíveis fósseis acrescenta anualmente 5 bilhões de toneladas por ano de CO₂ na atmosfera. O óxido nitroso (N₂O) é, hoje, o que mais causa danos à importante camada de ozônio, superando os clorofluorcabornetos (CFCs); pois bem, 2/3 do óxido nitroso provem dos processos de fertilização e em defensivos agrícolas, especialmente nas imensas monoculturas. O gás metano (CH₄), inicialmente conhecido como gás dos pântanos, atualmente é proveniente de atividades humanas na razão de 60%. Ele é gerado especialmente através dos cultivos agrícolas e na pecuária –‘peido’ do gado libera metano-, mas também os grandes lagos artificiais para hidrelétricas produzem metano. Nos últimos 200 anos, aumentou sua presença na atmosfera de 0,8 para 1,7ppm. Dada a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera, a redução necessária para as emissões seria, segundo o IPCC, da ordem de 50% até 2030; mas é preciso estar atentos a outros gases, como o óxido nitroso, por exemplo, cuja diminuição recomendada gira em torno de As principais fontes de energia renováveis são energia solar, energia eólica, energia hídrica, energia oceânica , energia geotérmica e a proveniente da biomassa. As previsões de demanda energética apontam para um crescimento anual de 1,5% até 2030, ou seja, 30% em vinte anos. Essas previsões se chocam frontalmente com a recomendação do IPCC para que se diminuam as emissões de CO2 em 50% até 2030 para que a temperatura não cresça 2ºC nas próximas décadas. É preocupante o direcionamento que as recentes decisões do governo estão conferindo à questão das fontes energéticas em nosso país. Hoje, a região amazônica é palco de grandes projetos hidroelétricos, como as usinas Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia, Belo Monte e Tapajós, no Pará, além de muitas Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH) espalhadas pelo país e os acenos de expansão da matriz energética atômica. O governo brasileiro praticamente ignora o potencial oferecido pelo nosso imenso território para a implementação e expansão da energia solar e da eólica. E quer incrementar a produção de energia nuclear, o que exigiria a construção de várias usinas nucleares, cujos resíduos permanecem radiativos por muitíssimos anos. Igualmente o programa Pré-Sal exige dispêndio de fortunas para a extração de um produto altamente poluente, cujo processo pode resultar em desastres ambientais incalculáveis, como o ocorrido no golfo do México, no ano passado. Nas décadas de 1980 e 1990 constatou-se que o desmate médio atingiu 20 mil km²; em 1995, registrou-se um pico de 29.059 km² e, em 2004, outro número assustador: 27.400 km². Philip M. Fearnside, um dos cientistas mais respeitado em questão de aquecimento global, critica a diretriz governamental de combate ao desmatamento da floresta amazônica, exposta no Plano Nacional sobre Mudanças do Clima (PNMC), afirmando que, embora a repressão ao desmatamento tenha produzido algum efeito, os planos de implantação de infraestrutura, somado à legalização de grandes áreas de terras antes na ilegalidade, apontam necessariamente para o crescimento do desmatamento. Se somarmos a concessão oficial para o desmate no período entre 2009-2017, chega-se à cifra de 80.112 km² de floresta derrubada, o equivalente a três Bélgicas. A concessão de 63 milhões de hectares de terra na Amazônia, através da Medida Provisória 422 - assinada por Lula, em 25 de março de 2008, que se tornou a Lei Nº 11.763 de 1º de agosto de 2008 - legalizou a grilagem de terra e o desmatamento. A devastação da biodiversidade está crescendo numa progressão geométrica. Embora a produção de alimentos no mundo (com agrotóxicos e tecnologia de ponta) seja suficiente para alimentar toda a população mundial, há mais de 1 bilhão de pessoas passando fome no mundo. Os pobres estão sendo empurrados para as regiões com maiores agressões ambientais, enquanto os ricos, os que mais destroem, estão ficando nas áreas mais preservadas, que serão em breve devastadas também pelo estilo de vida consumista. No Brasil, por exemplo, mais de 70% dos alimentos são produzidos pela agricultura familiar camponesa, e não pelo agronegócio que, ao contrário, continua asfixiando a os pequenos produtores. A Assembléia Geral da ONU, em vinte e oito de julho de 2010, aprovou uma resolução afirmando que a água e o saneamento básico são direitos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 13%, ou algo próximo a 900 milhões, vivem sem acesso a água potável, e 39%, ou aproximadamente 2,6 bilhões de pessoas, não dispõem de saneamento básico. Na América Latina, 85 milhões de pessoas não têm água potável e 115 milhões vivem sem saneamento básico. Esta situação é apontada como responsável direta pela morte de 1,5 milhão de crianças com menos de cinco anos de idade, vitimadas por diarreia. As costas litorâneas abrigam, em nossos dias, quase dois terços da população mundial, e estima-se que, até 2030 chegue a três quartos. Praticamente 40% dos recursos pesqueiros marinhos do Atlântico se encontram superexplorados e outros 30% totalmente explorados. Outro problema é o aumento de poluentes como esgoto, lixos, toxinas carregadas via atmosfera, envenena os oceanos diariamente. Com o aquecimento global os oceanos estão subindo e poderá subir, em média, Em 1972, aconteceu o primeiro encontro internacional que tratou sobre a relação entre o desenvolvimento e o meio ambiente, e ficou conhecido como Conferência de Estocolmo. A Conferência foi tensa, polarizada entre "crescimento zero” e "crescimento a qualquer custo” e, para sua superação, foi proposta uma abordagem ecodesenvolvimentista. Em 16 de setembro de 1987 foi acordado o Protocolo de Montreal. Assinado por 150 países, versou sobre substâncias que empobrecem a camada de ozônio. A Eco 92, realizada entre 3 e 14 de junho de 1992 no Rio de Janeiro, teve como objetivo principal: "buscar meios de conciliar o desenvolvimento socioeconômico com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra”. "A Conferência do Rio consagrou o conceito de desenvolvimento sustentável e contribuiu para a mais ampla conscientização de que os danos ao meio ambiente eram majoritariamente de responsabilidade dos países desenvolvidos...”. O Protocolo de Kyoto, de 1997, exige dos países signatários a redução n a emissão de poluentes em 5,2% em relação aos níveis de 1990. O documento precisa ser ratificado por pelo menos 55 países que, juntos, produziam 55% do gás carbônico lançado na atmosfera em Na Rio 10+, acontecida entre 26 de agosto e 4 de setembro de 2002 na África do Sul, avaliou o progresso feito na questão ambiental durante a década transcorrida desde a Eco-92. As Igrejas reunidas na Assembléia Ecumênica Mundial, realizada em Seul, na Coréia, de O papa João Paulo II, na Carta Encíclica Sollicituto Rei Socialis, afirma: "Entre os sinais positivos do presente é preciso registrar, ainda, uma maior consciência dos limites dos recursos disponíveis, a necessidade de respeitar a integridade e os ritmos da natureza e de tê-los em conta na programação do desenvolvimento, em vez de sacrificá-los a certas concessões demagógicas. É afinal, aquilo que se chama hoje de preocupação ecológica” . Na Exortação Pós-Sinodal de 2003, João Paulo II, diz: "Há necessidade de conversão ecológica, para a qual os Bispos hão de dar a sua contribuição ensinando a correta relação do homem com a natureza”. 3 - Sustentabilidade, novo paradigma civilizacional. Para se obter sustentabilidade requer-se, de um lado, a diminuição do consumo, sobretudo do excessivo e do supérfluo, e, de outro, a redução das gritantes desigualdades que podem ser sintetizadas em dados como o do consumo de carne. Atualmente, 45% da produção de carne e peixe, principais fontes de proteína animal, são consumidos por 20% da população do planeta, enquanto somente 5% do que se produz deste gênero de alimento é destinado aos 20% mais pobres. A proposta denominada "pegada ecológica” é uma ferramenta interessante para se constatar, de modo mensurável, as disparidades, pois identifica os excessos de pegada ou consumo. Por exemplo, "os EUA, que não têm uma qualidade de vida muito superior à da Itália, segundo se pode afirmar, usam duas vezes e meia mais pegada do que os italianos”. Mahatma Gandhi disse: "o mundo tem recursos suficientes para atender às necessidades de todos, mas não a ambição de todos” . Logo, a ambição e o lucro desenfreados devem ser considerados crimes e punidos. Para além da função social da propriedade, no campo e na cidade, é preciso se criar marco legal que exija também responsabilidade ecológica. Para quem devastar o meio ambiente, a pena será a expropriação da propriedade, ou seja, confisco sem pagamento. O progresso de um sistema econômico que agride a vida no e do planeta, e "já sacrificou muitas vidas, espécies e ecossistemas, tende à catástrofe planetária e podemos ir ao encontro do destino dos dinossauros”. O Planeta Terra é Gaia, um grande ser vivo que garante a vida de uma imensa biodiversidade, mas está sendo despelado – por excesso de desmatamento – e envenenado pelo excesso de agrotóxicos jogados na terra e nos cursos de água. O Brasil já é o maior consumidor de agrotóxico do mundo. Por ano já são mais de 1 bilhão de litros de veneno jogado na agricultura brasileira, a do agronegócio. Em média, são 2ª Parte: JULGAR – Por uma sociedade sustentável 4- GÊNESIS 1-11: A luz e a força divina estão em toda a biodiversidade Frei Gilvander Luís Moreira e frei Cláudio van Balen Nenhum texto bíblico mais sugestivo que o do Gênesis De acordo com a ONU, em 2005 aconteceram 360 desastres naturais: 168 inundações, 69 tornados e furacões e 22 secas que afetaram 154 milhões de pessoas. No final de 2004, um tsunami ceifou a vida de 280 mil pessoas. Em Gn 1-11 há relatos que não podem ser interpretados como se fosse simples história das origens do universo e da humanidade. Com uma roupagem simbólica, eles nos conferem uma responsabilidade decisiva na construção do mundo e da história, após o longo processo da evolução cósmica. O Deus da vida nos convoca à missão de parceiros na Aliança da Criação-Salvação. Para Gn 1-11 não há uma multidão de ídolos que povoaram ou povoam a terra com suas ‘monarquias’ dos poderes cultural-político-econômico-religiosos. A criação toda se encontra em Deus – grávido do universo – e desde sempre, do mesmo, ela flui, passando por uma gestação progressiva, em que a gratuidade do mistério da vida se anuncia a partir de formas minúsculas e na lentidão do infinito, do eterno. A pessoa humana capta e se arrisca de verbalizar o que é encoberto por um silêncio impenetrável. Daí, seu recurso a metáforas – Deus cria falando e recorre a dias – que expressam, simbolicamente, um mistério que ora amedronta ou encanta, ora suscita nossa admiração ou nos interpela. Deus, então, cria a partir da palavra, isto é, deixa emanar de seu ser - não por meio de simples decreto nem por um poder ditatorial – uma rica gama de seres. É algo como o próprio espírito de Deus ‘pairando’ sobre as águas (Gn 1,2b), melhor dizendo, todas as criaturas, toda a realidade, tudo e todos são permeados, perpassados pelo divino, pelo espírito de vida. O divino não está acima e nem fora do real, porém está na realidade com todas as suas relações se encontra abrigada em Deus. Nesta perspectiva o profano é realidade sagrada, pois emanado de Deus reflete algo de seu mistério. Se a criação acontece a partir da palavra – sopro divino – participa, em seu íntimo, do mistério divino e merece de todos, no respeito, a gratidão. Somos, pois, elevados a administradores do divino a ponto de –descuidando da criação – anularmos algo da essência divina e cometermos uma lesa-divindade. Conseqüentemente, maltratando da criação, prejudicamos a nós mesmos. "Houve uma tarde e uma manhã!” (Gn 1,5.8.13.19.23.31). Eis o refrão a revelar que para o povo da Bíblia a vida caminha das trevas da noite para a luz da aurora. "Faz escuro, mas cantamos”, diria o/a autor/a de Gn 1-11. Com mãos à obra, havemos de construir a esperança. Na criação de relações e instituições libertadoras, como sugere Gn 1, exclamamos: "Que Beleza! Tudo é muito bom! A vida, a mãe terra, a irmã água, toda a biodiversidade, tudo é destinado e chamado a ser fruto e berço de relações humanitárias a serviço da vida!”. O ser humano reconhece em si, e em todos os seres, algo da imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26). Sim, não só o ser humano. Toda a complexidade da vida –terra, água, seres vivos, cerrado, Amazônia, ar, sol, lua, estrelas, etc.- reflete o divino, irradia a luz e a força de Deus. Longe de nós o antropocentrismo, com sua arrogância excludente, que tanto mal tem feito à humanidade. Finalmente, graças a também a tantas crises, percebemo-nos fazendo parte, pertencendo uns aos outros. Irmãos insetos e passarinhos, por exemplo - exímios ecologistas - ajudam a limpar o ambiente, cuidando do equilíbrio da natureza. O irmão morcego, grande semeador, e o pardal benfeitor cumprem a missão de semear uma variedade infinita de espécies por onde vão passando. "Cuidem da terra!” (Gn 1,28). Não queiramos trair esta sua missão, simplesmente explorando e submetendo todos. Reinemos compartilhando responsabilidades e crescendo em todos os sentidos, não só na dimensão econômica. Cresçamos espiritualmente, deixemos de ser analfabetos espirituais, políticos e ecológicos. Não nos curvemos diante de sua ignorância e cobiça, nem diante de nenhum tipo de tirania. Exerçamos liderança. Participemos da coordenação da terra, isto é, do destino dos seres e do equilíbrio da vida. Ao cuidarmos da terra, nos beneficiamos a nós mesmos. O mundo do campo parece ser o chão geográfico e econômico do Gn 1- Somos gente colocada em uma horta / roça para cultivá-la qual jardim (Gn 2,8-9). Nossa missão é cuidar, proteger, pastorear toda a biodiversidade. Conviver de forma fraterna com todos e tudo. Isso é construir uma sociedade sustentável. Preservar, desenvolver e aperfeiçoar ao máximo deve ser a meta prioritária. Construir e produzir... só se for dentro dos limites da sustentabilidade. "Sociedade sustentável”, eis um grande desafio. Quando continuamos depredando, impiedosamente, a natureza e conservando relações injustas, cometemos uma falácia, uma grande mentira. Nada de nos esconder atrás da ignorância e maldade em discursos e práticas de pequenos e grandes agro-industriais. Sociedade implica respeito por natureza e pessoas. O sistema capitalista tem deixado um rastro de destruição. O futuro da humanidade e da biodiversidade está intrinsecamente ligado à construção de uma sociedade que se sustenta por uma envolvente, multiforme e responsável ecologia. Ecologia é cuidar da harmoniosa integração dos seres. Mulheres não podem ser consideradas inferiores só porque se teriam originado de uma costela de homem. (Gn 2,21). Leitura fundamentalista não! Homem e mulher são "carne da mesma carne”; emanam do mesmo Deus, sendo sua imagem viva. Eva, a culpada de tudo? A interpretação pode ser outra. Eva se mostrou rebelde frente à rotina, tão comum ao macho. Desde então, toda mudança deve algo a uma incômoda e santa rebeldia. Quem lidera o processo de amadurecimento humano provoca alguma instabilidade, porém estimula a abandonar o infantilismo. Só quando expulsos do paraíso do sossego e da acomodação, somos impelidos a abraçar o processo histórico com suas potencialidades e ambigüidades. Desde o início, o ser humano passa pela adolescência para chegar à fase adulta, pagando um preço a fim de viver e conviver em um mundo melhor. Ele conquista progressiva autonomia, assumindo o que faz parte da vida: dar à luz em dores de parto e suar por seu sustento. Isto – embora muitos o sintam qual castigo – conduz o ser humano a assumir a maioridade, fazendo-o caminhar com as próprias pernas. Os que buscam o novo, às vezes, com rebeldia, andam de mãos dadas com Deus. "Eis que faço novas todas as coisas”. Eles se fazem co-criadores de Deus. "Pecado original”... Tem a ver com uma inerente e original limitação de não querer assumir a própria condição humana em sua fragilidade. Requer-se a leveza da humildade em conviver com limitações e falhas, uma vez que, em nós, há desequilíbrios e virtudes de tantas gerações qual poeira cósmica a nos humilhar ou dignificar. Aqui, não cabe gloriar-se nem culpar outros. Somos vasos de barro, lembrou Paulo apóstolo. A realidade nos desafia para crescer em autonomia sem recair na auto-suficiência da soberba com prepotência. Longe de nós a dependência que humilha e a arrogância que subjuga. Tanto no bem como no mal, nada é somente meu. Pagamos um preço, não só à condição humana como também à herança genética e a mil e uma circunstâncias do passado e do presente. Um dos sintomas do pecado original é o instinto excludente de "propriedade privada”, tanto no plano individual como no plano sócio-político-cultural-econômico-religioso. O filósofo Jean Jacques Rousseau pondera que o pecado original entrou no mundo quando alguém resolveu cercar um pedaço de terra e dizer: isto é meu. Os outros, amedrontados pelo poder, abaixaram a cabeça e aceitaram. Ou seja, a raiz de muitos desvios e injustiças estaria nessa instituição da "propriedade privada”. De propriedade de bens necessários à vida passou à propriedade dos meios de produção, o que consagrou a violência no mundo. Daí, é só um passo para Caim matar Abel. Outro sintoma de pecado original é insinuar que a mulher é ‘sedutora’, eternamente conspirando, para fazer os homens caírem nas garras do mal. Veja a que pode chegar um preconceito, uma atitude covarde: Mulheres-cobra, de língua dupla, mentirosas, perversas e maliciosas. Em Gn Gênesis 3 não fala de mulheres carregando uma certa essência impura e pecaminosa, por isso distanciadas da plena presença do divino. Excluir as mulheres de lugares e instituições; impedi-las de "tocar” no sagrado, de partilhar do altar, de ritos e liturgias, é trair o sentido da mensagem bíblica. A biblista Maria Soave nos alerta: "Foi a serpente conhecedora da sabedoria que fez a humanidade acordar: "Não acreditem na força da violência e dos donos das armas! Não acreditem nos tiranos e nos senhores! Tomem da fruta da árvore, tenham força para gritar não, para acreditar na mudança, para tirar do trono os reis poderosos e seus deuses onipotentes e vingativos! Na evolução da história, a humanidade tomou a fruta e comeu. Nossos olhos se abriram e tivemos a coragem de expulsar reis poderosos, sacerdotes opressores e deuses violentos. Tivemos a coragem de ser felizes. Eva – a humanidade com o cheiro de terra – a partir daquele dia, passou a ser chamada com o nome de serpente: hawwah, Eva, Mãe de todos os viventes”. Caim mata Abel, no passado e no presente. Caim é ferreiro, da cidade. Detentor da tecnologia de guerra e do poder. Abel é pastor, peregrino seminômade. Assim era e é o povo de Deus. Não nos fixemos apenas em Caim e na sua violência. Deus se comove com a dor de Abel e interpela Caim: "Onde está seu irmão Abel?” (Gn 4,9). Deus não fica neutro, opta pela defesa do agredido. Os enfraquecidos por sistemas de morte -tal como o capitalismo selvagem– podem inspirar-se no Deus de Abel e no Abel de Deus. No relato do dilúvio (Gn 6-9) não nos limitemos à inundação destruidora que reforça em nós a imagem de um Deus justiceiro a punir a humanidade. Olhemos, prioritariamente, para Noé, homem justo, íntegro e que andava com Deus (Gn 6,9). Noé, mesmo não sendo profissional, faz uma arca. Em tempos de seca se prepara para enfrentar as inundações. Preocupa-se em salvar toda sua família: um casal de todas as espécies vivas. Assim, Noé se torna o pai da ação ecológica e da defesa intransigente de toda biodiversidade. Assim como Chico Mendes, há milhares de Noés pelo mundo afora, participando da construção de uma sociedade sustentável. Em Gn 11,1-9 olhemos não apenas para a arrogância humana que constrói uma torre / cidade para destronar Deus. Vejamos, a presença amorosa de Deus que suscita a diversidade de línguas e culturas, inviabiliza todo e qualquer ‘pensamento único’ e, assim, gera a dispersão de planos diabólicos das hegemonias ameaçadoras. O evangelho de Lucas fez questão de registrar no Cântico de Maria, a mãe de Jesus: "Deus derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes”. Abraão e Sara (Gn 12). Abraão... Algo novo surge do cansaço, quando tudo é julgado perdido. Sara... Esperança há, mas de tão vagarosa provoca zombaria sem desviar-se do caminho. O casal é convocado para o desconhecido, ameaçado pelo que não deseja. Tem de deixar sua terra e reconhecer, duas vezes, que filho não lhe pertence. É no aparente abandono que o novo recebe sua nova chance. Resta-lhe uma risada e um grito de dor a ecoar pelos caminhos do tempo, conscientizando seu povo, a humanidade. Passos certos têm de ser dados. Nada de pressa. Falhas não fecham portas. Abraão..., inspiração dos que crêem..., maltratados no presente, ameaçados pelo futuro. Com Sara, na velhice, ele gera um filho. E na terra do Faraó, ele não assume a companheira como sua. Ao mesmo tempo, fiel a si mesmo, até na perda, se faz defensor da vida contra a morte. Modelo dos que crêem, troca o incerto pelo certo, mas, fragilizado, recebe a ordem: "Vá, retire-se”. O caminhar faz o caminho. Ousa viver com uma promessa sem livrar-se de sua pequenez. Deus não precisa de super-homens. Em Sara e Abraão, somos todos justificados pela fé. O pensamento iluminado nos preserva contra a ditadura de um poder central – a partir de dentro de si e de fora. Aqui, não pode haver oposição entre fé e mundo, entre sagrado e profano, entre fé pessoal e autoridade. Autonomia e responsabilidade formam a base de uma maturidade espiritual. O impulso dinâmico da fé está na base da evolução da história e da fé. Enfim, com o ser humano intimamente ligado à mãe terra, com homem e mulher em pé de igualdade e dignidade, com a liderança de Eva, com Abel, Noé, Abraão e Sara, a bênção de Deus envolve todas as criaturas e nos convoca para recriarmos o mundo em suas relações e instituições. Tudo isso é uma beleza! Vale a pena investir nossas energias nesta empreitada para o nosso bem e para o bem das próximas gerações. Com Fé no Deus da vida, fé nos pequenos, fé em toda a biodiversidade e fé em nós mesmos, vamos, com mãos à obra, cantando: "Vencer o inimigo invencível;... Não me importa saber se é terrível demais, quantas guerras terei de vencer, por um pouco de paz, E amanhã, se este chão que beijei, for o meu leito e perdão, vou saber que valeu delirar e morrer de paixão; E assim, seja lá como for, vai ter fim a infinita aflição, e o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão.” (Maria Bethânia) 5- E o descanso de Deus? Este mundo sem o descanso de Deus, de sua presença, corre o risco de converter-se em fábricas que poluem e de homens e mulheres que atuam em um mercado de trabalho gerador mais de morte, que de vida propriamente. Não podemos aceitar a redução de pessoas a meras máquinas funcionadoras de um sistema de morte. "Obedeço ao sistema. Não posso modificar nada”, se desculpam muitos funcionários que mantém a máquina mortífera funcionando a todo vapor. Por que viver para trabalhar? Até os momentos de repouso são, muitas vezes, usados por indústrias do lazer que mais cansam as pessoas do que as descansam. Por que mineração, grandes supermercados e grande parte do comércio devem funcionar dia e noite e aos domingos e feriados também? É sofisma dizer que é para poder atender quem trabalha durante o dia. Por que não se pode diminuir a carga horária, deixando assim mais tempo livre para as pessoas resolverem seus problemas pessoais e tendo inclusive tempo para participar de forças vivas da sociedade? Para a reorganização da sociedade israelita na metade do século VII a.C, numa fase posterior à dominação da Assíria e procura contrapor-se aos valores e práticas deste povo imperialista da época , inclusive no cuidado para com a natureza, o livro do Deuteronômio nos dá algumas recomendações: a) Dt 22,6-7 – nesta passagem, o texto diz explicitamente que se alguém encontrar no caminho, sobre uma árvore ou na terra, uma ave sobre um ninho, com ovos ou filhotes, e tendo necessidade destes alimentos, poderá ficar com os filhotes, mas deverá poupar a ave ("livre deixarás a mãe”). b) Dt 20,19-20 – No Deuteronômio, mesmo em um capítulo em que apresenta orientações para situações de batalha, não é esquecido o cuidado com a natureza. Nesse sentido, é interessante a indicação para se poupar as árvores produtivas: "quando sitiares uma cidade... não destruas as árvores a golpes de machado; porque poderás comer dos frutos. Não derrubes as árvores. Ou as árvores do campo seriam porventura homens para fugirem de tua presença por ocasião do cerco?” (Dt 20, 19). Neste sentido, esta preocupação demonstrada no texto é oportuna para o nosso contexto, dado que ainda se constata o prosseguimento de uma das formas mais aviltantes de agressão ao meio ambiente, a devastação de florestas. c) Dt 23,13-15 – nesta passagem, existe a indicação para se manter a limpeza do acampamento: "Fora do acampamento terás um lugar onde te possas retirar para as necessidades. Levarás no equipamento uma pá para fazeres uma fossa... Antes de voltar, cobrirás os excrementos.” (Dt 23, 13-14). Aqui aparece a preocupação para com o saneamento em meio ao acampamento do povo, dado importante para as condições de vida daquelas pessoas. Em nossos dias o déficit em saneamento básico é vergonhoso, atinge cerca de 2,5 bilhões de pessoas no mundo. 6- No deserto, uma lição de consumo responsável Após amargar uns 500 anos debaixo do imperialismo dos faraós no Egito, os oprimidos se uniram, se organizaram e fugiram atravessando o Mar Vermelho. Moisés foi o guia e líder desta caminhada pelo deserto. O povo precisava de comida e recebeu o maná, "Moisés lhes disse: Isto é o pão que o Senhor vos dá para comer” (Ex 16, 15b). Entretanto, havia normas para evitar o desperdício e permitir que todos tivessem o necessário. Cada um só podia recolher o que de fato precisava, "Eis o que o Senhor vos mandou: recolhei a quantia que cada um de vós necessita para comer, um jarro de quatro litros por pessoa” (Ex 16, 16a). O que fosse acumulado a mais apodreceria, "alguns, porém, desobedeceram a Moisés e guardaram o maná para o dia seguinte; mas ele bichou e apodreceu” (Ex 16, 20). A terra é repartida de modo a evitar a concentração de bens, e consequentemente de poder, "Entre estes se repartirá a terra em herança, de modo proporcional ao número de pessoas” (Nm 26, 53). Logo, é impossível ser cristão sem lutar pela efetivação de reforma agrária. A concentração da terra em poucas "mãos/garras” é o que garante o galopar do agronegócio, algo tremendamente devastador do meio ambiente, concentrador de riqueza, vulnerabilizador da soberania, pois vai deixando o território sem povo e quase não gera emprego. Além de prescrever o descanso individual no sábado, a Bíblia prevê também um descanso da terra no Ano Sabático, que deveria acontecer de sete em sete anos (Ex 23,10-11). E a lei do descanso não parava por aí, indicava também um Ano Jubilar (a cada cinqüenta anos), no qual a terra deveria voltar às famílias que originalmente as ocuparam, demonstrando assim, que a terra deveria ser usada segundo o desejo de seu legítimo dono, que é Deus. Diz o Senhor: "As terras não se venderão a título definitivo, porque a terra é minha, e vós sois estrangeiros e meus agregados” (Lv 25,23). A intenção aí é cuidar da justiça social, impedindo a latifundiarização. -. PLANETA TERRA: PREOCUPAÇÕES, D. Demétrio Valentini, Bispo de Jales, SP, Presidente da Caritas. Neste ano a Campanha da Fraternidade coloca o planeta terra no centro de nossas atenções. Mesmo que a formulação do tema coloque a vida como primeira referência, na verdade o foco se dirige para o planeta, visto como fator indispensável para a vida, e olhado com apreensão, em decorrência da profunda dependência da vida em relação ao planeta terra. Todos nos damos logo conta de quanto foi oportuna a decisão da Igreja em colocar este assunto como tema da Campanha da Fraternidade deste ano de 2011 – “A Vida no Planeta” - acompanhado de um lema tirado da Bíblia: “A criação geme em dores de parto!”. Está posto o assunto, e lançado o alerta: o momento exige atenção e cuidado, para que se superem as apreensões, e se confirmem as esperanças de que o planeta terra continue cumprindo sua crucial função de garantir que a vida tenha condições de prosseguir, com sua dinâmica positiva. O tema VIDA já tinha sido colocado A Campanha deste ano, sem desmerecer estas referências próprias da vida humana, faz a singela mas decisiva constatação, de que não só a vida humana, mas todo o sistema vital que conhecemos, depende das condições que o planeta terra proporciona. E´ bom viver, mas é importante descobrir e ressaltar os fatores que nos permitem viver! Podemos, então, nos dar conta da importância do planeta, como matriz dos sistemas vitais, profundamente interdependentes na sua complexidade, e fundamentais para tornar possível a vida humana, que será sempre nosso indispensável ponto de referência ao considerarmos a função vital do planeta. Nossa vida participa das condições do planeta. Ela depende deste planeta. A terra é a nave espacial, onde todos os seres vivos embarcaram, com uma complexidade bem maior do que a imaginada pela arca de Noé. Nossa vida depende da vida no planeta. Dito de maneira mais contundente, como alguns preferem, nossa vida depende da vida do planeta. Pois dada a íntima correlação entre os seres vivos e o planeta terra, o próprio planeta pode ser visto como um grande organismo vivo, que abriga e suscita todas as formas de vida nele existentes. E´ salutar a consciência desta dependência em relação ao planeta. Assim somos levados a nos preocupar com suas funções vitais, e verificar em que condições elas se encontram. Neste sentido, a Campanha deste ano apresenta dois sintomas preocupantes, através dos quais nos interrogamos sobre a situação vital do planeta. Trata-se do aquecimento global, e das mudanças climáticas. E´ compreensível que o assunto seja abordado a partir de sintomas. Pois a vida é tão complexa, que não é fácil abordá-la diretamente. Como fazem os médicos com nosso organismo humano, ficam atentos aos possíveis sintomas apresentados, para discernir o estado de saúde em que o paciente se encontra. Assim somos chamados a fazer com este paciente todo especial, o planeta terra. O primeiro sintoma é mais mensurável, e fácil de comprovar. A temperatura média do planeta está aumentando. Impressiona constatar a estabilidade das condições vitais oferecidas pelo planeta. Os cientistas se admiram, por exemplo, da dose adequada de oxigênio na atmosfera, na medida justa para possibilitar a vida. Assim a temperatura média vinha se mantendo estável ao longo de milênios. Mas a partir da revolução industrial, é inegável que começou a aumentar. Esta constatação, junto com o outro sintoma das mudanças climáticas, menos mensuráveis mas intuídas espontaneamente, levantam diversas interrogações, sobre suas causas e suas conseqüências. A Campanha nos estimula a clarear estas interrogações, para situar melhor nossas responsabilidades. .. Nosso Incrível Planeta - Dom Aloísio Roque Oppermann scj, Arcebispo de Uberaba - MG A terra, dentro do contexto dos astros, possui dimensões muito modestas. Até pobres. Não passa de um grão de areia diante do tamanho ciclópico de algumas estrelas, ou, pior ainda, diante do tamanho das galáxias. Mas como a história do big bang nos leva a concluir, todo o universo é antrópico. Isso é, desde o primeiro bilionésimo de segundo as coisas foram se direcionando, para que como término da obra da criação aparecesse o ser humano, o topo da criação visível. Para que a vida, em sua constituição mais complexa, pudesse aparecer, fez-se necessário um hábitat, uma casa, onde toda a vida vegetal e animal pudesse se estabelecer. Eu não vou agradecer à terra, nem ao big bang, nem à natureza, os imensos privilégios com que fomos distinguidos. Essa abundância de seres e de vida foi planejada pelo Pai Criador, que quis isso tudo, dizendo sua Palavra. “No princípio criou Deus o céu e a terra” (Gen 1,1). A esse Deus eu agradeço, extasiado por sua sabedoria e poder. (E por seu amor por nós). Se a terra, olhando seu tamanho relativo, é quase insignificante, suas características, favoráveis à vida são estupendas e até únicas. Nosso planeta tem água líquida, base para toda a condução da atividade vital. Tem atmosfera, com gases suficientes para purificar os processos vitais. Tem camada de ozônio, para proteger contra as irradiações devastadoras vindas de outros astros. Possui rotação constante sobre um eixo, que facilita a exposição alternada ao sol, evitando o frio absoluto ou o calor excessivo. Tem uma distância ideal do sol para manter uma temperatura necessária para a vida. Paremos por aqui. Os outros planetas todos, ou são uma fornalha de calor, ou uma geladeira total. Não tem atmosfera, não tem defesa contra os raios perniciosos; são secos, sem água líquida; giram à deriva, ou nem giram nunca; a gravidade é exagerada, ou é tão fraca que tudo se perde pelo espaço... Não existe planeta gêmeo da terra. Então vamos cuidar melhor disso que recebemos como dádiva das mãos divinas. “Encham e submetam a terra” (Gen 1, 28). Isso de submeter a terra (e todo o universo) deve ser entendido no sentido de cuidar. Pode haver o uso de tudo, mas um uso sustentável, como em boa hora lembra a Campanha da Fraternidade deste ano de 2011.
Planeta Terra: interrogações - Dom Demétrio Valentini, Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira
Dada a evidente relação de nossa vida com o planeta terra – tema lançado pela Campanha da Fraternidade deste ano – é muito conveniente situar algumas interrogações levantadas por alguns sintomas preocupantes. Sobretudo os dois que a Campanha aponta: o aquecimento global, e as mudanças climáticas. Essas interrogações apontam tanto para as causas destes sintomas, como para suas consequências. E em decorrência, claro, nos motivam para nossas responsabilidades, quando bem identificadas. A dificuldade de precisar bem os fenômenos relativos ao planeta terra reside no fato elementar de que o planeta tem um tirocínio muito maior daquele que podemos alcançar com nossa existência humana. Mesmo ajudados pelos cientistas, enfrentamos ainda muita nebulosidade quando nos perguntamos sobre o que já aconteceu à terra, na sua longa trajetória de bilhões de anos. Não é fácil descobrir os segredos que ela guarda, e quais são seus procedimentos face ao fenômeno da vida, que ela carrega como seu apanágio mais importante. Mesmo os cientistas não são unânimes em interpretar os indícios de fatos relevantes acontecidos em nosso planeta. Segundo estudos realizados pela Universidade da Califórnia, sob a coordenação do professor Anthony Barnosky, já teriam acontecido cinco grandes extinções na história do planeta. Elas teriam provocado o desaparecimento, no mínimo, de dois terços das espécies vivas então existentes. Considere-se, como fato evidente, o mais do que comprovado desaparecimento dos dinossauros. A interrogação maiúscula é se existem indícios de que estaria próxima a sexta grande extinção em massa das espécies de seres vivos do planeta terra. De acordo com estes cientistas, antes da presença da raça humana, a cada milhão de anos desapareciam duas espécies de mamíferos. Ao passo que só nos últimos quinhentos anos teriam desaparecido oitenta espécies de mamíferos, o que representaria uma aceleração preocupante, mesmo que a quantia represente proporcionalmente pouco, isto é, só um ou dois por cento das espécies. Os próprios cientistas nos advertem que existe um enorme componente de incerteza nesses cálculos. Além do mais, como a extinção de espécies se dá de maneira irregular, olhar apenas um período mais curto, como, por exemplo, os últimos 500 anos, pode dar uma idéia errada das tendências a longo prazo. De tal modo que estamos suficientemente alertados da inconveniência de tirarmos conclusões precipitadas ou alarmistas a respeito das condições de vida em nosso planeta terra. O que não nos isenta de estarmos atentos aos sinais inquietantes que podem ser detectados, dentro do âmbito do nosso alcance humano de averiguação e de comprovação. Sobretudo, diante da acelerada exploração dos recursos naturais, levada a efeito a partir da recente revolução industrial, é evidente a necessidade de repensar o modelo de desenvolvimento implantado. Ele se caracterizou pela avidez em explorar os recursos da terra, como se fossem inesgotáveis. Ao passo que já ficou evidente quanto eles são limitados, e estão prestes a desaparecer, como por exemplo as jazidas petrolíferas. Este fato, sim, nos oferece um panorama ao alcance de nossa comprovação humana. Em consequência, nossa responsabilidade pode ser medida pela capacidade que tivermos, como espécie humana, de mudar nossa maneira de usar os recursos do planeta, de modo a favorecer o equilíbrio vital na era em que vivemos, garantindo que continuem no futuro. Por isto, a reflexão sobre o estado de vida do planeta nos leva a alguns consensos importantes, que precisam ser bem identificados. . . PLANETA TERRA: CONSENSOS - D. Demétrio Valentini, Bispo de Jales, Presidente da Caritas. A Campanha da Fraternidade deste ano está nos motivando para conferir a vida no planeta terra, e auscultar os sinais de alerta que está emitindo. Como já pudemos constatar, o enfoque central da campanha deste ano está na constatação da imprescindível função do planeta terra para a existência da vida. A vida depende do planeta. As condições de vida do planeta ditam as possibilidades e as condições de vida dos seres vivos que habitam o planeta. A Campanha aborda o tema pelo caminho dos sintomas, apontando com clareza dois: o aquecimento global e as mudanças climáticas. E´ compreensível que assim proceda, pois a vida é tão complexa que fica difícil sua abordagem direta. Os sintomas têm a vantagem de captar o que merece mais atenção. Como o médico que se debruça com carinho para auscultar os sinais vitais do paciente, assim somos chamados a fazer diante dos sinais de alerta emitidos pelo planeta. Ambos suscitam apreensões, e levantam legítimas interrogações, cujas respostas devemos procurar, na medida de nosso alcance. Mesmo que interrogações continuem, existe um leque de constatações e de indicações, em torno das quais dá para tecer um amplo consenso, muito importante para uma ação articulada e eficaz. O despertar da consciência ecológica está nos levando a perceber a validade e a sabedoria da primeira recomendação feita à humanidade, de acordo com a linguagem figurativa da Bíblia. Segundo ela, Deus confiou a criação à humanidade, para que a cuidasse e cultivasse. E´ muito importante captar bem o significado real desta linguagem figurada. Pois da correta compreensão desta passagem bíblica vai depender a atitude adequada que devemos ter com a natureza. Pode ser que tenhamos assimilado esta linguagem de maneira equivocada, como se Deus tivesse entregue a criação ao homem para “dominar e explorar a terra”, sem critério, e sem respeito por suas condições de vida. Em vista desta interpretação equivocada, alguns chegam até a acusar a fé cristã de ter sido a patrocinadora da mentalidade predatória que caracterizou a revolução industrial. Urge explicitar a interpretação verdadeira desta importante passagem bíblica. Diante da atitude predatória do modelo de desenvolvimento decorrente da revolução industrial, vai se firmando a convicção de que os recursos do planeta são limitados, e precisam ser usados com cuidado e parcimônia, para não desperdiçá-los. Assim, será preciso cada vez mais superar a cultura do consumismo e do desperdício, pela sobriedade e consciência da preciosidade dos recursos vitais que o planeta nos oferece. Desta atitude, impregnada de fé e de responsabilidade humana, decorrem muitas posturas concretas, que esta campanha pode incentivar, se estamos dispostos a acolher seus apelos e a nos organizar pessoal e comunitariamente. São diversas as frentes de ação ecológica que podem nos levar a uma cultura de preservação das condições de vida do planeta. Os cuidados com a água, por sua escassez e preciosidade, a pureza do ar, o cultivo adequado do solo, as medidas de preservação do meio ambiente, tudo isto pode se constituir em motivações consistentes a sustentar uma nova mentalidade. Sejam como forem as condições do planeta, cuidaremos dele, e saberemos sintonizar nossas atitudes com a dinâmica de vida que rege sua natureza.
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