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Reflexão
Dia de finados. Uma reflexão
Postada em: 02/11/2009

Dia de finados. Uma reflexão  

José Lisboa Moreira de Oliveira, doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma, escreve, por ocasião do dia de Finados, sobre a Dimensão corporal da Vocação, em artigo que nos foi enviado e que publicamos.

O autor foi assessor do Setor Vocações e Ministérios da CNBB (1999-2003) e Presidente do Instituto de Pastoral Vocacional (2002-2006). Atualmente é gestor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília, onde também é professor de Antropologia da Religião e Ética.

Eis o artigo.

A comemoração do dia de Finados (02 de novembro) me oferece a oportunidade de refletir sobre uma dimensão da existência humana, cristã e vocacional pouco considerada por boa parte do cristianismo e da Igreja Católica. Trata-se da corporalidade ou, se quisermos, da dimensão corporal do chamado divino e da experiência cristã.

O dia de Finados deveria ser voltado para essa reflexão, mas infelizmente tanto o aspecto cultural como o modo de celebrá-lo dos cristãos termina por ofuscar aquilo que deveria ser a essencialidade desse dia: afirmar que o corpo é tão importante quanto a alma e o espírito. Na cultura brasileira, e também de outros países, o dia de Finados se reduz a uma rápida visita aos cemitérios. Na maioria das vezes trata-se apenas de cumprir uma formalidade social para dar satisfação à sociedade. No outros 364 dias do ano os restos mortais dos parentes ficam por conta do abandono. Basta passar por um cemitério nos outros dias do ano para vermos o mato crescendo nas covas rasas e a sujeira tomando conta dos túmulos, mesmo aqueles mais sofis-ticados, cobertos de mármore.

É verdade que algumas pessoas costumam ficar chorando ao pé da cova e dos túmulos, no dia de Finados. Mas também isso, na maioria das vezes, não passa de encenação, coisa para os outros verem. Isso é tão verdadeiro que nós mesmos chegamos a cunhar a expressão: “depois de morto todo mundo vira santo”. Tem razão Zeca Baleiro ao dizer o seguinte na sua canção Minha casa: “É mais fácil cultuar os mortos do que os vivos”. Sim, porque morto não incomoda mais, não pode mais responder a nada e nem tem mais voz para discordar e para censurar nossos comportamentos de falsidade e de aparência. O próprio Jesus reprovou no povo da sua época, particularmente nos fariseus, essa atitude hipócrita: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que edificais os sepulcros dos profetas e decorais os túmulos dos justos” (Mt 23,29).

O contexto do texto onde se encontra essa frase que Mateus atribui a Jesus deixa bem claro que a denúncia do Mestre é contra a hipocrisia dos que matam e massacram as pessoas, enquanto elas estão vivas (Mt 23, 30-31), e, em seguida, para tranqüilizar a consciência e en-ganar os simples e ingênuos, fazem homenagens póstumas. Isso então nos leva a refletir sobre a necessidade do resgate da dignidade humana e da luta contra todo tipo de exploração do ser humano na sua corporalidade.

Infelizmente séculos e mais séculos de dualismo e de maniqueísmo levaram o cristia-nismo a deixar de lado a missão fundamental de promover o ser humano na sua dimensão corporal. Até hoje é comum ouvirmos afirmações e proposições que desprezam a corporalida-de. Há ainda uma visão generalizada de que a corporalidade não tem nenhum valor, pois o que conta mesmo é a alma. Assim sendo, mesmo em nossos dias, vemos com freqüência as pessoas cristãs maltratarem o próprio corpo com duras penitências e exageros, levadas pelo princípio de que é preciso castigar o corpo para salvar a alma. Há alguns anos atrás acompa-nhei, numa cidade do interior da Bahia, o caso de uma senhora grávida a qual, manipulada por um grupo de fanáticos, liderados por um visionário e psicopata, insistiu em fazer jejuns duran-te a gravidez, pois, segundo o que se dizia, era uma exigência de Nossa Senhora. Resultado: ela quase morreu por anemia e a criança nasceu raquítica. O marido dessa mulher não acei-tando tal absurdo terminou por se separar dela. E muitos desses exemplos poderiam ser multi-plicados.

Mas o pior de tudo é a indiferença e a insensibilidade da maioria dos cristãos para com as diversas formas de injustiças e de misérias. Corpos esqueléticos, deformados e maltratados pela fome, pelo trabalho escravo, pela falta de assistência médica. Diariamente milhares de pessoas, principalmente crianças, morrem de fome, de inanição, por não ingerirem a quanti-dade suficiente de calorias necessárias para mantê-las vivas. Irmãs e irmãos nossos, tanto no campo como na cidade, têm os seus corpos debilitados e maltratados pela falta de comida, de saneamento básico e de tantos outros bens essenciais para uma vida digna e saudável. E tudo isso porque, para a maioria dos cristãos, o importante é salvar a alma. O corpo não conta nada. Pode ser maltratado e pisoteado, pois, logo depois da morte, há a recompensa no céu para a alma dessas pessoas. Parece absurdo o que estou dizendo, mas essa é a visão que caracteriza a quase totalidade dos cristãos e das cristãs, inclusive bispos e padres.

A Bíblia nos diz que o ser humano é uma unidade na pluralidade, ou seja, ele não é di-vidido em partes separadas e antagônicas. Espírito, alma e corpo são apenas dimensões que marcam todo o ser da pessoa, a mesma e única existência humana. Assim sendo o espírito da pessoa é a dimensão por meio da qual toda ela se deixa conduzir por Deus. A alma é toda a pessoa na sua interioridade e o corpo é toda a pessoa na sua capacidade de se relacionar com os outros, particularmente com o grande Outro que é Deus. Dessa forma não é possível sepa-rar as três dimensões porque cada uma delas perpassa totalmente as outras. Toda a pessoa humana é corpo, toda a pessoa humana é alma e toda a pessoa humana é espírito.

Ana Roy, já falecida, religiosa da Congregação das Irmãs Auxiliares do Sacerdócio, nos deixou uma prenda, um livro intitulado Tu me deste um corpo (Paulinas, 2000), que é uma verdadeira jóia. Nesse livro ela explica muito bem os conceitos bíblicos de espírito, alma e corpo e deixa bem claro que separar de maneira dicotômica as três dimensões significa dis-tanciar-se por completo da verdadeira proposta da Palavra de Deus.

 Porém, dada a visão deturpada, mencionada anteriormente, somos convidados no atu-al momento a recuperar a importância e o valor da corporalidade humana. Isso porque, sendo o corpo, no sentido bíblico do termo, a dimensão humana que permite a comunicação, o rela-cionamento e o encontro, ele é fundamental para a vivência da vocação humana e cristã. É através do corpo e da corporalidade que a pessoa humana responde com prontidão ao chama-mento divino. Aliás, quando Deus chama alguém, não chama um espírito qualquer, uma alma desencarnada, mas uma pessoa, à qual foi dada a possibilidade de se relacionar com ele atra-vés da sua corporalidade. O autor da Carta aos Hebreus deixa isso bem evidente quando, fa-lando do “sim” de Jesus ao convite do Pai para assumir a encarnação, afirma que a resposta do Filho foi a seguinte: “Não quisestes sacrifício e oblação, mas plasmaste-me um corpo” (Hb 10,5 – versão TEB). E é através dessa corporalidade que o Filho Jesus pode dizer a Deus seu Pai: “Eis-me aqui” (Hb 10,7).

Portanto, é um absurdo desconsiderar o valor e o significado da corporalidade para a resposta vocacional, para a vivência do chamado divino. Isso quer dizer que no acompanha-mento vocacional é de fundamental importância perceber como o vocacionado e a vocaciona-da se vêem corporalmente. É de fundamental importância levar a sério a dimensão antropoló-gica da vocação, vendo a pessoa do vocacionado ou da vocacionada como alguém que é cha-mado a existir corporalmente, ou seja, situado no tempo, no espaço, na história, na realidade concreta. Desse modo é possível denunciar o absurdo desses grupos religiosos que buscam vocacionados “anjos”, gente sem corpo, sem sensibilidade, sem humanidade. Esses tipos são “fantasmas” e não seres humanos plenos. Por esse motivo podem brincar de responder ao chamado de Deus, mas nunca serão capazes de assumir com seriedade uma vocação na Igreja porque são seres “desencarnados”, sem a essência humana que se concretiza na materialidade de um corpo.

O teólogo italiano Sandro Spinsanti, no livro Il corpo nella cultura contemporanea, (Queriniana, Bréscia, 1983), publicado há mais de vinte anos atrás e não traduzido para o por-tuguês, falando sobre o tema do corpo na cultura contemporânea, chama a nossa atenção para essa questão. Afirma que a separação artificial entre alma e corpo é um dos maiores proble-mas da cultura ocidental. Isso porque quando se separa artificialmente a alma do corpo, a al-ma das emoções e dos movimentos do corpo, todo o ser humano é seriamente prejudicado. É como se fosse arrancado dele uma de suas partes essenciais, tais como o coração ou os pul-mões. Spinsanti afirma que tal separação pode se dar tanto pela supervalorização da alma co-mo pelo culto ao corpo, típico da cultura contemporânea. Esse teólogo conclui dizendo que o ser humano, enquanto unidade e totalidade, faz a sua experiência do Absoluto não somente através do seu espírito, mas também por meio de sua corporalidade. Ou, melhor dizendo, seu espírito (ser que se deixa guiar por Deus) percebe o Absoluto através de sua corporalidade.

Não há, pois, como desconsiderar essa questão da corporalidade na espiritualidade cristã e na animação vocacional. Ela é urgente e atual. Deixar de lado essa dimensão é querer uma Igreja não de pessoas reais e concretas, mas de fantasmas, de seres inexistentes. E, infelizmente, há por aí muitos bispos e padres alimentando pseudovocações, gente que não tem corporalidade e, portanto, que não tem vida plena. Seres que vivem nas nuvens, que não têm sentimentos plenamente humanos, insensíveis, não servem para serem cristãos e cristãs. Nem mesmo no paraíso celeste, pois também lá estaremos com nossa corporalidade plena e não apenas com nossas almas (1Cor 15,35-58). Quem pensa diferentemente já esvaziou a sua fé; é um iludido (1Cor 15,12-19).

Por essa razão sou do parecer que a comunidade cristã precisa repensar o modo como tem comemorado o Dia de Finados. Ele não pode ser apenas um dia no qual se vai formalmente ao cemitério para dar uma olhadinha no túmulo dos parentes, cumprindo assim um formalismo social, um ritualismo estéril. O Dia de Finados deveria passar a ser o Dia da Corporalidade Cristã. Dia no qual, aproveitando do feriado, os cristãos se reuniriam nos cemité-rios para celebrar a vida, a certeza da ressurreição. Seria o dia no qual, a partir da convicção de que o corpo “ressuscita incorruptível” (1Cor 15,42), os cristãos fariam a sua profissão de fé no valor da corporalidade humana, comprometendo-se a lutar contra toda e qualquer forma de injustiça, de opressão e de violação da dignidade humana na corporalidade.

Essa coisa de ir para os cemitérios limpar túmulos e arrancar mato das covas rasas tem pouco de cristianismo. Essa coisa de ir para chorinhos é pura hipocrisia e falsidade. Podemos, com certeza chorar nossos mortos, sentir a sua partida e ausência. Jesus também fez isso (Jo 11,35). Mas o choro de Jesus foi um choro solidário, um convite a nos comprometermos com a luta para que todas as pessoas atadas pelas diferentes formas de morte sejam desatadas e libertadas para a vida (Jo 11,44). Por isso, repito, temos que rever a metodologia pastoral para o Dia de Finados. Do contrário, nosso choro não passará de “lágrimas de crocodilo”, como aquelas dos que foram contar aos fariseus o que Jesus tinha feito ao morto Lázaro, surgindo dessa fofoca a decisão de “fazê-lo perecer” (Jo 11,53).

Fonte: IHU-unisinos.

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